Boi de Ouro: Navegando pelas Salvaguardas Chinesas sobre Carne Bovina & o Mercado de “Ouro Castanho”

O ano de 2026 marca uma ruptura definitiva no modelo de exportação de proteína animal do Brasil para a China. O anúncio recente do Ministério do Comércio da China (MOFCOM) sobre a implementação de medidas de salvaguarda e um sistema de Quotas Tarifárias (TRQ) representa mais do que uma barreira comercial; é um realinhamento geopolítico da segurança alimentar chinesa. Para o exportador brasileiro, o cenário exige uma migração imediata da mentalidade de “commodities de massa” para uma estratégia de “sinologia de precisão”. Enquanto o volume de carne in natura encontra uma barreira de proteção doméstica em Pequim, nichos de altíssimo valor agregado, como o mercado de niu huang (cálculos biliares bovinos), surgem como a nova fronteira de rentabilidade para quem domina os códigos culturais e regulatórios da Ásia-Pacífico.

A Anatomia da Investigação: Por que o MOFCOM agiu agora?

A implementação das salvaguardas não foi um evento fortuito, mas o ápice de uma investigação rigorosa conduzida pelo MOFCOM. O gatilho foi o crescimento vertiginoso das importações brasileiras entre 2019 e meados de 2024, período em que o Brasil consolidou uma dominância quase absoluta no prato do consumidor chinês. Essa inundação de oferta estrangeira, embora benéfica para o controle da inflação de alimentos na China, gerou uma pressão insustentável sobre a indústria doméstica.

A Associação Chinesa de Agricultura Animal (CAAA) liderou a petição, argumentando que os produtores locais enfrentavam prejuízos severos e uma perda de market share que ameaçava a soberania produtiva do país. O MOFCOM concluiu que era necessário um “período de respiro” para a modernização da pecuária chinesa. Assim, a medida de salvaguarda foi desenhada para durar três anos (2026-2028), criando um teto artificial que obriga os parceiros internacionais a competirem não mais por preço, mas por eficiência logística e estratégica.

Explainer Técnico: O Mecanismo da Quota Tarifária (TRQ)

O novo sistema TRQ opera sob uma lógica de “pedágio punitivo”. O MOFCOM estabeleceu uma quota global de 2.688.000 toneladas métricas para 2026. Ao Brasil, foi destinada a maior fatia nacional: 1.106.000 toneladas (41,1% do total). No entanto, este número é enganoso quando comparado ao desempenho histórico: em 2025, o Brasil exportou 1,7 milhão de toneladas para a China. Há, portanto, um déficit de 600 mil toneladas que o mercado não conseguirá absorver sem custos proibitivos.

  • Regime Intra-quota: Aplica-se a tarifa padrão de 12%. É o território da competitividade normal.
  • Regime Extra-quota: Uma vez atingido o limite de 1,1 milhão de toneladas, incide uma sobretaxa de salvaguarda de 55%, elevando a tarifa final para 67%.

O aspecto mais crítico deste sistema é o seu modelo de gestão: “Primeiro a chegar, primeiro a ser servido” (first come, first serve). O saldo da quota não é garantido pelo embarque no porto de Santos ou Paranaguá, mas sim pelo momento exato do desembaraço aduaneiro na China. Isso transforma cada navio em uma corrida contra o tempo e contra os volumes de outros exportadores, onde um atraso de 24 horas pode significar a diferença entre uma operação lucrativa e um prejuízo catastrófico de milhões de dólares.

Sismo Institucional: A Reação do Setor Brasileiro

A magnitude da medida provocou uma onda de choque nas instituições brasileiras, que agora buscam coordenar uma resposta de emergência. A Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos) já projeta uma redução de receita na ordem de US$ 3 bilhões para o exercício de 2026, sinalizando que os pequenos e médios frigoríficos, sem escala para gerir riscos logísticos complexos, serão os mais afetados.

No campo analítico, a consultoria Safras & Mercado prevê um recuo de 3,6% nos abates bovinos no Brasil em 2026, refletindo a necessidade de ajustar a oferta interna diante da “muralha” chinesa. Enquanto isso, entidades como a ABIEC e a CNA articulam-se com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) para uma ofensiva diplomática. O governo brasileiro sinalizou que pode levar o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC), questionando se as salvaguardas chinesas cumprem os requisitos de “surto imprevisto de importações” e “prejuízo grave”, mas especialistas em sinologia aplicada advertem que uma disputa legal na OMC pode levar anos, enquanto o mercado exige soluções para os próximos meses.

Gestão de Riscos e a Guerra dos Incoterms

Em 2026, a logística deixou de ser um serviço de apoio para se tornar o coração da estratégia financeira. Aponta-se que a escolha do Incoterm (International Commercial Terms) é agora o principal instrumento de mitigação de risco.

  • FOB (Free on Board): Tornou-se a modalidade preferencial para o exportador brasileiro. Ao transferir a responsabilidade para o importador chinês ainda no porto de origem, o frigorífico brasileiro se protege do risco de a carga chegar à China após o esgotamento da quota. O risco da sobretaxa de 55% passa a ser do comprador, que possui maior influência sobre o desembaraço em portos como Shanghai ou Ningbo.
  • CFR e CIF (Cost, Insurance and Freight): Estas modalidades tornaram-se perigosas. No CIF, o seguro contratado pelo exportador geralmente cobre apenas danos físicos à carga (perda ou avaria), não cobrindo “perdas financeiras por alterações regulatórias” ou atrasos que resultem em sobretaxação tarifária. Um atraso por congestionamento portuário ou uma decisão arbitrária de transbordo por parte do armador pode invalidar a margem de lucro de todo um trimestre.

Além das Fronteiras: O “Ouro Castanho” e o Mercado de Niu Huang

Enquanto o MOFCOM restringe a carne, a cultura milenar chinesa abre uma janela de oportunidade bilionária. O Calculus Bovis (cálculos biliares bovinos), ou niu huang, é um componente essencial na Medicina Tradicional Chinesa (TCM), utilizado em remédios de emergência como o Angong Niuhuang Wan. O valor deste subproduto é astronômico: em 2025, o preço de 30 gramas de pedras de alta qualidade atingiu US$ 5.800, superando o valor de mercado do ouro.

A China consome 90% da produção global de niu huang, mas sua oferta doméstica supre menos de 20% da demanda superior a 5.000 kg anuais. Tradicionalmente, este mercado operava em “zonas cinzentas” via Hong Kong, mas o Programa Piloto de 2025 mudou o jogo. Agora, a China permite a importação direta de países com risco insignificante para a Vaca Louca (BSE), categoria em que o Brasil se destaca.

Para os produtores brasileiros, a oportunidade é clara:

  1. Habilitação GACC/CIFER: Frigoríficos devem atualizar seus registros para incluir especificamente subprodutos de uso medicinal.
  2. Padronização Logística: O desenvolvimento de hubs regionais, como o centro financiado pela China no Uruguai, permitirá que o Brasil consolide e padronize a produção de cálculos biliares, garantindo preços premium para pedras íntegras e douradas.
  3. Rentabilidade por Carcaça: A coleta sistemática de niu huang pode adicionar uma margem de lucro que compensa a perda de volume da carne sob quota.

Conclusões

O cenário de 2026 não perdoa o improviso. A ZH Research permanece firme em seu propósito de jogar luz sobre mercados e nuances regulatórias que, outrora, passariam despercebidos pelos exportadores brasileiros devido ao desconhecimento cultural ou mercadológico. O caso do niu huang é o exemplo perfeito da sinologia aplicada: existem demandas na China para produtos brasileiros que sequer possuem um mercado ou nome comercial aqui no Brasil. Navegar por essas águas exige mais do que saber exportar; exige entender a alma do mercado chinês e a pragmática do seu governo. Em tempos de salvaguardas e quotas, a informação estratégica é o único ativo que não pode ser taxado.

© ZH Research, todos os direitos reservados.

Aprofunde-se

  1. 25 NEW slaughterhouses in Brazil approved for export to China. Yumda, 2026. Disponível em: https://www.yumda.com/en/news/1162705/25-new-slaughterhouses-in-brazil-approved-for-export-to-china.html. Acesso em: 13 jan. 2026.
  2. ALBUQUERQUE, Naiara. Cota chinesa para carne do Brasil vai reorganizar fluxos de produção, diz analista. Bloomberg Línea, 12 jan. 2026.
  3. APIARY. The Calculus Bovis Market Analysis: offering insights into the market’s financial status, market size, and revenue. 2025. Disponível em: https://calculusbovismarketsharemarkettrendsandforecastsfrom2025to.docs.apiary.io/. Acesso em: 13 jan. 2026.
  4. APPROVED 1281 of imported food list at AQSIQ database. AQSIQ, 2026. Disponível em: https://www.aqsiq.net/imported-food-list. Acesso em: 13 jan. 2026.
  5. ARE cow gallstones the new gold? fyi.news, 2026. Disponível em: https://fyi.news/en/articles/are-cow-gallstones-the-new-gold/. Acesso em: 13 jan. 2026.
  6. BOUÇAS, Cibelle; WEISS, Gabriela; VILARINO, Cleyton. Brazil seeks compensation from China over beef tariff. Globo Rural, 1 fev. 2026.
  7. BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. China opens five new markets for Brazilian agricultural products and advances sanitary and phytosanitary cooperation. Portal Gov.br, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/en/news/china-opens-five-new-markets-for-brazilian-agricultural-products-and-advances-sanitary-and-phytosanitary-cooperation. Acesso em: 13 jan. 2026.
  8. CATTLE Gallstones Are Worth an Absolute Fortune — and the USDA Wants American Farmers to Get Involved. Food & Wine, 2026. Disponível em: https://www.foodandwine.com/cattle-gallstones-increased-demand-11683830. Acesso em: 13 jan. 2026.
  9. CHINA. Ministério do Comércio da República Popular da China. Determination on the Application of Safeguard Measures on Imports of Beef: List of Developing Countries (Regions) Exempted (Annex 3). Pequim, 31 dez. 2025.
  10. CHINA. Ministério do Comércio da República Popular da China. Determination on the Application of Safeguard Measures on Imports of Beef: Table of Quota Volumes and Additional Tariff Rates (Annex 2). Pequim, 31 dez. 2025.
  11. CHINA. Ministério do Comércio da República Popular da China. Ruling of the Ministry of Commerce of the People’s Republic of China on the Safeguard Measure Investigation Against Imported Beef (Annex 1). Pequim, 31 dez. 2025.
  12. CHINA DAILY. China’s beef industry urges immediate safeguard measure. Pequim, 26 dez. 2025.
  13. CHINA DAILY. Trial use of imported TCM material approved. 7 maio 2025. Disponível em: https://epaper.chinadaily.com.cn/a/202505/07/WS681a953ea310ad6769f21ab1.html. Acesso em: 13 jan. 2026.
  14. CHINA removes ban on imported calculus bovis in traditional Chinese medicine. SCIO, 22 abr. 2025. Disponível em: http://english.scio.gov.cn/pressroom/2025-04/22/content_117837301.html. Acesso em: 13 jan. 2026.
  15. CHINA removes ban on imported calculus bovis in traditional… Silk Road, 2025. Disponível em: https://en.imsilkroad.com/p/345299.html. Acesso em: 13 jan. 2026.
  16. CHINA authorizes 38 Brazilian slaughterhouses to export meat to the country. Garra International, 2026. Disponível em: https://www.garrainternational.com/china-authorizes-38-brazilian-slaughterhouses-to-export-meat-to-the-country/. Acesso em: 13 jan. 2026.
  17. CHINA2BRAZIL. Logística passa a ser decisiva na exportação de carne para a China em 2026. Exame Agro, 6 jan. 2026.
  18. CORPORATE ACCOUNTABILITY LAB. Beef with the Brazilian Cattle Industry. 13 ago. 2025. Disponível em: https://corpaccountabilitylab.org/calblog/2025/8/13/beef-with-the-brazilian-cattle-industry. Acesso em: 13 jan. 2026.
  19. CURRENT situation and countermeasures of traditional Chinese medicine resource distribution: a case study of Wuyi County in China. PubMed Central, 2026. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12043565/. Acesso em: 13 jan. 2026.
  20. DCF MODELING. What are the Porter’s Five Forces of Zhangzhou Pientzehuang… 2026. Disponível em: https://www.dcfmodeling.com/products/600436ss-porters-five-forces-analysis. Acesso em: 13 jan. 2026.
  21. DOKKEN, Victoria. China Announces TRQ Following Beef Safeguard Investigation. USDA Foreign Agricultural Service, GAIN Report CH2026-0001, 5 jan. 2026.
  22. DRUG Centralized Procurement in China: Concerns and Implications for Drug Quality and Access. Law and Biosciences Blog – Stanford Law School, 18 fev. 2025. Disponível em: https://law.stanford.edu/2025/02/18/drug-centralized-procurement-in-china-concerns-and-implications-for-drug-quality-and-access/. Acesso em: 13 jan. 2026.
  23. FOLHA DE S.PAULO. Brasil não sabe se a carne bovina em trânsito está sujeita a cotas da China. Brasília e São Paulo, 6 jan. 2026.
  24. FRESHDI. Top 3 Herbs Suppliers in China in Quarter 3 of 2025: Navigating a Rapidly Evolving Market. 2025. Disponível em: https://freshdi.com/blog/top-3-herbs-suppliers-in-china-in-quarter-3-of-2025-navigating-a-rapidly-evolving-market/. Acesso em: 13 jan. 2026.
  25. GACC registration – food registration for China. MPR China Certification GmbH, 2026. Disponível em: https://www.china-certification.com/en/china-food-certifications/. Acesso em: 13 jan. 2026.
  26. GII RESEARCH. Calculus Bovis – Global Market Share and Ranking, Overall Sales and Demand Forecast 2025-2031. 2026. Disponível em: https://www.giiresearch.com/report/qyr1873626-calculus-bovis-global-market-share-ranking-overall.html. Acesso em: 13 jan. 2026.
  27. GLOBAL TIMES. China imposes country-specific tariff-rate quotas on imported beef as safeguard measure; expert says move aligns with WTO rules. Pequim, 31 dez. 2025.
  28. INTEL MARKET RESEARCH. Calculus Bovis Market Outlook 2026-2032. 2026. Disponível em: https://www.intelmarketresearch.com/calculus-bovis-market-21095. Acesso em: 13 jan. 2026.
  29. JULIÃO, Fabrício. Brasil vai negociar cotas de exportação de carnes à China, diz Fávaro à CNN. CNN Brasil, 31 dez. 2025.
  30. MARCONI, Estela. Como a cota da China sobre carne bovina deve mexer com a produção no Brasil. Exame Agro, 12 jan. 2026.
  31. MAYWAY. How Tariffs and Changes in China’s Herbal Market Will Affect U.S. Herb. mar. 2025. Disponível em: https://www.mayway.com/blogs/articles/chinese-herb-supply-chain-update-march-2025. Acesso em: 13 jan. 2026.
  32. PUBMED CENTRAL. A review of the Bovis Calculus’s intervention mechanism and clinical application in ischemic stroke. 2026. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11775449/. Acesso em: 13 jan. 2026.
  33. RAWESSENCIA. Bovine Gallstones: A Market in Full Correction. 2026. Disponível em: https://rawessencia.com/news/bovine-gallstones-a-market-in-full-correction/. Acesso em: 13 jan. 2026.
  34. RAWESSENCIA. The Market for Bovine Gallstones. 2026. Disponível em: https://rawessencia.com/ox-gallstones/the-market-for-bovine-gallstones/. Acesso em: 13 jan. 2026.
  35. REGARDING the Inspection and Quarantine Requirements for Cow… FoodGACC, 2026. Disponível em: https://www.foodgacc.com/china-gacc-approved-list-registration-ciqcode-cifer-singlewindow-cow-bezoar-from-argentina. Acesso em: 13 jan. 2026.
  36. TOP 10 Chinese Herbal Medicine Companies: Origins, Therapeutic Focus & Highlights. Clival, 2026. Disponível em: https://clival.com/blog/top-10-chinese-herbal-medicine-companies-origins-therapeutic-focus-highlights. Acesso em: 13 jan. 2026.
  37. UOL. Setor de carne bovina diz que cota e tarifa da China podem custar US$ 3 bi. São Paulo, 31 dez. 2025.
  38. USDA. Inquiries Signal Strong Industry Demand for Ox Gallstones as Sales of Angong Pill Grow. Hong Kong, GAIN Report HK2024-0025, 2024. Disponível em: https://apps.fas.usda.gov/newgainapi/api/Report/DownloadReportByFileName?fileName=Inquiries%20Signal%20Strong%20Industry%20Demand%20for%20Ox%20Gallstones%20as%20Sales%20of%20Angong%20Pill%20Grow_Hong%20Kong_Hong%20Kong_HK2024-0025. Acesso em: 13 jan. 2026.
  39. WALENDORFF, Rafael; FIGUEIREDO, Nayara. Meatpackers may curb output after China sets import quota. Valor International, 13 jan. 2026.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima