
A Estratégia Nacional de Segurança (ENS) dos Estados Unidos de 2025 e o Policy Paper da China de 2025 são documentos de alto nível lançados recentemente, que representam as visões de mundo e dos interesses geopolíticos das duas maiores potências globais. Ambos os documentos dedicam atenção significativa à América Latina, transformando a região em um epicentro da crescente competição entre Washington e Pequim. Nesse cenário de intensa disputa, a América Latina emerge não apenas como um objeto de ambições externas, mas como um ator com o potencial de moldar seu próprio destino, exigindo uma análise aprofundada de como a região pode navegar entre essas forças para garantir sua liberdade de ação e fortalecer seu papel no cenário internacional.
A América Latina é uma região cultural e geográfica das Américas onde as línguas românicas, principalmente o espanhol e o português, são predominantes, distinguindo-a da América Anglo-Saxônica. Geograficamente, estende-se desde a fronteira sul dos Estados Unidos, abrangendo todo o México, a América Central, as ilhas do Caribe de língua latina e toda a América do Sul. Essa vasta área inclui países como Brasil, México, Argentina, Colômbia, Peru, Chile, Venezuela, Cuba, entre muitos outros, formando um mosaico de nações com ricas histórias, culturas e desafios socioeconômicos compartilhados.
A Estratégia Nacional de Segurança (ENS) dos EUA é um relatório abrangente e de alto nível, emitido pelo Presidente dos Estados Unidos, que delineia a visão da administração sobre os principais desafios e oportunidades de segurança que a nação enfrenta. Ele serve como um guia estratégico para todas as agências governamentais, articulando os interesses vitais dos EUA, definindo objetivos estratégicos e estabelecendo as abordagens e ferramentas (diplomáticas, econômicas, militares, de inteligência, etc.) que serão empregadas para proteger e promover esses interesses no cenário global. Essencialmente, a ENS reflete a filosofia de política externa e as prioridades de segurança de uma determinada administração, buscando alinhar os esforços de todo o governo para enfrentar ameaças e moldar o ambiente internacional de acordo com os valores e objetivos americanos, como visto nas estratégias de George W. Bush (2002, 2006), Barack Obama (2010, 2015), Donald Trump (2017) e Joe Biden (2022).
A caracterização da China como um adversário explícito ou um “competidor estratégico” nos documentos da Estratégia Nacional de Segurança (ENS) dos EUA tornou-se proeminente e inequívoca a partir da administração de Donald Trump. Embora as ENS anteriores, como as de George W. Bush e Barack Obama, já reconhecerem o crescente poder da China e a necessidade de gerenciar sua ascensão, muitas vezes buscavam um equilíbrio entre competição e cooperação. No entanto, a ENS de 2017 da administração Trump marcou uma mudança significativa, rotulando abertamente a China (juntamente com a Rússia) como uma “potência revisionista” que busca desafiar o poder, a influência e os interesses americanos, e minar a segurança e a prosperidade dos EUA. Essa abordagem foi então solidificada e aprofundada pela ENS de 2022 da administração Joe Biden, que identificou a China como o “único competidor com a intenção de remodelar a ordem internacional e, cada vez mais, o poder econômico, diplomático, militar e tecnológico para fazê-lo”, consolidando sua posição como o desafio geopolítico mais consequente para os Estados Unidos.
Já o Policy Paper da China é uma declaração oficial e abrangente do governo chinês que articula sua estratégia, princípios e objetivos para o desenvolvimento de relações com uma região específica ou para abordar uma questão global. Esses documentos servem para comunicar a visão de Pequim, delinear áreas de cooperação e projetar sua influência no cenário internacional, refletindo sua abordagem diplomática e econômica. Eles são frequentemente utilizados para promover o conceito de “comunidade com futuro compartilhado” e para detalhar iniciativas como a Nova Rota da Seda, buscando alinhar parceiros com os interesses e a visão de mundo da China, como exemplificado pelos três últimos Policy Papers para a América Latina e o Caribe, lançados em 2008, 2016 e 2025.
Por tais razões, a ENS dos EUA (2025) e o Policy Paper da China (2025) com relação à AL serão analisados, concluindo-se sobre o possível papel da região nesse contexto.
EUA e o Corolário Trump à Doutrina Monroe
A Doutrina Monroe, proclamada pelo Presidente James Monroe em 1823, é um pilar fundamental da política externa dos Estados Unidos, estabelecendo o princípio de que as potências europeias não deveriam colonizar ou interferir nos assuntos das nações recém-independentes das Américas. Em essência, ela declarava o Hemisfério Ocidental fora da esfera de influência europeia, com a contrapartida de que os EUA não se intrometeriam nos assuntos europeus. Embora inicialmente concebida como uma medida defensiva para proteger as jovens repúblicas latino-americanas e os próprios interesses americanos contra o expansionismo europeu, ao longo do tempo, a Doutrina Monroe foi frequentemente reinterpretada e utilizada para justificar a intervenção dos EUA nos assuntos internos dos países latino-americanos, consolidando a hegemonia americana na região. Exemplos notáveis incluem o Corolário Roosevelt, proclamado em 1904, que afirmava o direito dos EUA de intervir para estabilizar nações latino-americanas e evitar a intervenção europeia, levando a intervenções militares em países como a República Dominicana (1905-1907 e 1916-1924) e o Haiti (1915-1934), e, mais tarde, a justificação para ações durante a Guerra Fria para conter a influência soviética na região, como na Crise dos Mísseis em Cuba (outubro de 1962).
A Estratégia Nacional de Segurança dos EUA para o Hemisfério Ocidental, apresentada como o “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, marca uma reorientação assertiva da política externa americana na região. Após um período percebido de negligência, os Estados Unidos buscam restaurar sua preeminência, proteger seu território e garantir acesso a geografias-chave. O cerne dessa abordagem é a determinação em negar a concorrentes não-hemisféricos – como a China – a capacidade de posicionar forças, desenvolver capacidades ameaçadoras ou controlar ativos estrategicamente vitais na região. Esta postura visa reafirmar o poder e as prioridades americanas, alinhando-se diretamente com os interesses de segurança nacional dos EUA.
A ENS atual (2025) se desdobra em dois pilares principais: “Engajar e Expandir”. O pilar “Engajar” foca em mobilizar parceiros regionais para lidar com desafios como migração ilegal, tráfico de drogas e fortalecimento da estabilidade, incentivando a produção local e o desenvolvimento econômico. Isso inclui uma reavaliação da presença militar dos EUA, com ajustes globais para focar em ameaças hemisféricas, maior presença da Guarda Costeira e Marinha, e implantações direcionadas, inclusive com uso de força letal contra cartéis. Paralelamente, a diplomacia comercial é priorizada, utilizando tarifas e acordos recíprocos para fortalecer as indústrias americanas e transformar o Hemisfério em um mercado atraente para o comércio e investimento dos EUA. O pilar “Expandir” visa aprofundar parcerias existentes e cultivar novas, desencorajando a colaboração com outros atores externos e identificando recursos estratégicos para desenvolvimento conjunto.
Tal documento de alto nível também aborda a preocupação com o avanço de concorrentes não-hemisféricos, que teriam feito “grandes incursões” na região, prejudicando os EUA economicamente e estrategicamente. Para combater essa influência, os EUA condicionarão alianças e ajuda à redução da presença adversária, seja no controle de instalações militares, portos ou ativos estratégicos. Há um esforço explícito para expor os “custos ocultos” (como espionagem e armadilhas de dívida) da assistência estrangeira de baixo custo e para promover bens e serviços americanos como superiores e sem “amarras”. A meta é que os países da região escolham um mundo liderado pelos EUA, de nações soberanas e economias livres, em detrimento de um influenciado por potências distantes, com o governo e o setor privado dos EUA trabalhando em conjunto para identificar e financiar oportunidades de investimento para empresas americanas, enquanto resistem a medidas que as desfavoreçam.
Em suma, a Estratégia Nacional de Segurança dos EUA para a América Latina delineia uma visão altamente assertiva e auto-orientada, que enxerga o Hemisfério Ocidental como um campo de batalha crucial para a reafirmação da preeminência americana. A estratégia integra ferramentas econômicas, militares e diplomáticas para reestabelecer o domínio dos EUA e marginalizar rivais, especialmente a China, enfatizando uma abordagem transacional para alianças e assistência. Essa postura sinaliza uma mudança significativa em direção a uma política externa mais confrontacional e focada nos interesses próprios na região, com implicações profundas para a dinâmica geopolítica e econômica da América Latina.
A China e sua visão de Futuro Compartilhado
O terceiro documento de política da China para a América Latina e o Caribe (ALC), lançado em 2025, delineia uma agenda ambiciosa e abrangente para aprofundar o relacionamento com a região. Centrado no conceito de “Comunidade China-ALC com Futuro Compartilhado”, o documento estrutura sua estratégia em cinco programas – Solidariedade, Desenvolvimento, Civilização, Paz e Conectividade Povo a Povo. Essa abordagem reflete a intenção da China de construir uma ordem mundial alternativa, mais alinhada com seu sistema de autoridade e que garanta apoio a seus interesses centrais, como a questão de Taiwan, ao mesmo tempo em que busca marginalizar a influência dos EUA. A priorização do Programa de Solidariedade, que integra cooperação política e internacional, sugere que os objetivos políticos são primordiais para Pequim na região.
O Programa de Desenvolvimento, a seção mais extensa do documento, enfatiza a continuidade da cooperação econômica e comercial, alinhando-se com a Iniciativa de Desenvolvimento Global e a Iniciativa Cinturão e Rota. Ele propõe uma vasta gama de colaborações em finanças, energia, infraestrutura, manufatura, agricultura, segurança alimentar e tecnologia, incluindo a expansão de infraestrutura de uso dual e cooperação em alta tecnologia, como IA e aeroespacial, e até mesmo a construção de bases logísticas para expedições antárticas. Paralelamente, o Programa de Paz expande a cooperação em segurança e aplicação da lei, enquadrada pela Iniciativa de Segurança Global, abrangendo agora cibersegurança, controle de exportação de não proliferação, anticorrupção e repatriação de foragidos, demonstrando uma nova confiança da China em incluir uma agenda de segurança em suas parcerias na ALC.
Embora o documento de 2025 mantenha a linha de seus antecessores (2008 e 2016) ao enfatizar a cooperação política e o desenvolvimento econômico, ele demonstra uma evolução notável em sua abrangência e institucionalização. É significativamente mais longo e integra as quatro iniciativas globais de Xi Jinping, indicando uma estratégia global mais coerente. Um ponto crucial é a proeminência dada à questão de Taiwan, que é apresentada como a “premissa” para as relações diplomáticas e exige um compromisso muito mais explícito dos países da ALC com o princípio de uma só China e a oposição à “independência de Taiwan”. Isso sinaliza que a China espera um apoio ativo e pode intensificar a pressão e os incentivos para que os países restantes da ALC que reconhecem Taiwan mudem sua posição.
Em conclusão parcial, o Policy Paper de 2025 da China para a ALC não é meramente um guia para o engajamento regional, mas um manifesto estratégico que reflete uma China mais assertiva e com ambições globais. Ele consolida uma abordagem multifacetada que transcende o comércio e o investimento, buscando alinhar a região com sua visão de uma nova ordem mundial e garantir apoio em questões de soberania e segurança. Essa estratégia representa um desafio direto à preeminência dos EUA no Hemisfério Ocidental, transformando a ALC em um palco central para a competição entre grandes potências e exigindo uma análise cuidadosa por parte de empresas e governos que buscam navegar nesse cenário geopolítico complexo.
Conclusões

Ao lançarem papers de alto nível, EUA e China manifestam um cenário de concorrência pela influência a nível global. Notadamente, a América Latina surge como um local evidente de disputas geoestratégicas.
Em síntese, o terceiro Policy Paper da China para a América Latina e o Caribe pode ser categoricamente interpretado como uma resposta estratégica direta à Estratégia Nacional de Segurança (NSS) dos EUA. O momento incomum de seu lançamento, que diverge dos padrões anteriores de acompanhamento de visitas de alto nível, e sua divulgação “logo após” a NSS da administração Trump, são indicativos cruciais. Além disso, a NSS americana focou explicitamente em conter “concorrentes não-hemisféricos” na ALC e na questão de Taiwan, um interesse central para Pequim. Essa convergência temporal e temática sugere que o documento chinês não apenas reitera sua própria agenda, mas também serve como um contraponto deliberado, visando neutralizar a narrativa dos EUA e afirmar a influência chinesa em um cenário de crescente competição geopolítica no Hemisfério Ocidental.
A América Latina emerge como um palco estratégico e, ao mesmo tempo, vulnerável no crescente confronto geopolítico entre os Estados Unidos e a China. A região é vista por Washington como seu domínio histórico, onde a preeminência americana deve ser restaurada e mantida, negando espaço a “concorrentes não-hemisféricos” e protegendo ativos vitais. Por outro lado, Pequim enxerga a ALC como uma oportunidade crucial para expandir sua “comunidade com futuro compartilhado”, consolidar apoio diplomático em questões sensíveis como Taiwan e integrar a região em suas iniciativas globais de desenvolvimento e segurança. Essa dinâmica posiciona a América Latina não apenas como um mercado ou fonte de recursos, mas como um campo de batalha onde ambas as potências buscam moldar a ordem global, expondo os países da região a pressões e a uma disputa por lealdades e recursos.
Para transcender o papel de mero objeto dessa disputa e aumentar sua liberdade de ação e influência internacional, a América Latina deve adotar uma abordagem estratégica e proativa. Isso implica na diversificação de parcerias, buscando engajamento com múltiplos atores globais além de EUA e China, para reduzir a dependência e aumentar o poder de barganha. O fortalecimento da integração regional é crucial, permitindo que a ALC negocie com uma voz unificada e defenda seus interesses coletivos. Além disso, a região precisa definir e articular suas próprias agendas de desenvolvimento sustentável, tecnológico e social, atraindo parceiros que realmente contribuam para essas prioridades.
Por fim, ao promover ativamente o multilateralismo e um sistema internacional baseado em regras, a América Latina pode se posicionar como um ator autônomo e influente, capaz de moldar seu próprio destino e contribuir significativamente para a governança global, em vez de ser apenas um reflexo das ambições de grandes potências.
© ZH Research, todos os direitos reservados.
Referências
CENTER FOR STRATEGIC AND INTERNATIONAL STUDIES (CSIS). China’s Third Policy Paper on Latin America and the Caribbean: Expanding Influence and Ambitions. Washington, D.C., 16 jan. 2019. Disponível em: www.csis.org. Acesso em: 24 dez. 2025.
CHINA. Ministério das Relações Exteriores. Política da China para a América Latina e o Caribe. Pequim, 2025. Disponível em: https://www.fmprc.gov.cn/. Acesso em: 22 de dezembro de 2025.
ESTADOS UNIDOS. PRESIDENTE. National Security Strategy. Washington, D.C., 2025. Disponível em:https://www.whitehouse.gov/issues/national-security/. Acesso em: 22 de dezembro de 2025.


Deixe um comentário