
A China encontra-se atualmente num ciclo de disrupção tecnológica, tendo alcançado vários marcos importantes no final de 2024 e ao longo de 2025 em diversas áreas e posicionando-se cada vez mais próxima da, senão já na, liderança mundial. Em 10 artigos, a série “China na Crista da Onda” descreverá alguns desses avanços por setor, explicará a sua relevância e tecerá recomendações para negócios interessados em cooperação e replicação no Brasil.
A China não está apenas acompanhando a corrida global por energia limpa; está redefinindo seus parâmetros. Em um ciclo de avanços tecnológicos concentrados entre o final de 2024 e 2025, o país demonstrou uma capacidade única de identificar e superar os limites práticos das tecnologias ocidentais estabelecidas. Este artigo se aprofunda em dois feitos revolucionários do setor eólico, as turbinas aéreas de grande altitude e as gigantescas turbinas flutuantes offshore, e desvenda por que essas soluções não são apenas alternativas, mas representam um salto de superioridade técnica e econômica com profundas implicações para o Brasil e a América Latina.
Resumo Executivo
A inovação chinesa no setor eólico se materializou em dois campos distintos, ambos marcados por uma abordagem pragmática que supera obstáculos crônicos dos projetos ocidentais. Primeiro, a startup Sawes Energy (Beijing Linyi Yunchuan Energy Technology) testou com sucesso as turbinas aéreas S1500 e sua sucessora S2000, que operam como aerostatos estáveis a até 2.000 metros de altitude, gerando até 3 MW. Em segundo lugar, gigantes estatais como a China Huaneng Group e a Dongfang Electric Corporation lançaram turbinas flutuantes offshore de 17 MW e um protótipo recordista de 26 MW, destinadas a águas profundas.
Os avanços tecnológicos chineses são inequívocos e bem documentados. No ar, a Sawes Energy realizou em setembro de 2025 o teste da S1500, um aerostato em forma de anel (ring wing) do tamanho de uma quadra de basquete. Com seu design inovador que abriga 12 turbo-geradores independentes de 100 kW no interior do anel, ela gerou 1 MW de energia a 1.000 metros de altitude. Em 11 de janeiro de 2026, a evolução S2000 foi testada em Yibin, Sichuan, atingindo 2.000 metros e uma capacidade nominal de cerca de 3 MW, já conectada à rede elétrica.
A superioridade chinesa reside na superação de problemas de viabilidade: enquanto projetos ocidentais de turbinas aéreas, como o Makani (Google X) e os da Kitepower (Holanda), SkySails Power (Alemanha), EnerKite (Alemanha) e Kitemill (Noruega), lutaram com a complexidade do voo dinâmico e limitaram sua capacidade a centenas de kilowatts, a solução chinesa de “anel aerostático” oferece estabilidade, capacidade em megawatts e drástica redução de custos.
No mar, os avanços são igualmente impressionantes. Em julho de 2025, foi lançada uma turbina flutuante offshore de 17 MW. Logo em seguida, um protótipo de 26 MW (atualmente a unidade individual mais potente do planeta) foi instalado, um projeto conduzido pela China Huaneng Group e pela Dongfang Electric Corporation. Estas não são meras turbinas instaladas em plataformas; são sistemas de engenharia complexa projetados para resistir às condições severas do mar profundo.
Da mesma forma, no mar, enquanto o Ocidente opera predominantemente com turbinas “fixas” no leito marinho (como as de 13 MW da GE Vernova no Reino Unido ou as de 12 MW da Siemens Gamesa nos EUA), a solução flutuante chinesa desbloqueia o potencial eólico de mais de 80% dos oceanos do mundo.
O Contexto: A Estratégia por Trás da Superioridade
O contexto chinês é de investimento estratégico focado em resolver problemas que limitaram o Ocidente. No caso da energia eólica aérea, o Ocidente, liderado por empresas como a Altaeros Energies (originária do MIT, que alcançou um marco de 30 kW a 300 metros por volta de 2015), Makani, Kitepower, SkySails Power, EnerKite e Kitemill, perseguiu por anos o modelo de “asa” ou “pipa”. Este modelo tenta dominar a dinâmica de voo, onde o movimento da estrutura no vento gera força. No entanto, essa complexidade trouxe problemas intrínsecos: alto consumo de energia para manter o voo (trabalhando como bombas de sucção), falhas críticas de pouso (como a perda total da aeronave da Makani nas águas da Noruega) e custos proibitivos, resultando no cancelamento de projetos emblemáticos.
A China escolheu um caminho radicalmente diferente e superior: dominar a estática. O projeto da Sawes Energy é um “aerostato anelar”, essencialmente um zepelim estável cheio de hélio. Esta escolha elimina os problemas de voo dinâmico. Sua forma de anel aproveita o “Efeito Venturi”, acelerando o vento que passa pelo centro e fazendo os geradores internos girarem mais rápido. Operando entre 1.500 e 2.000 metros, ele captura ventos laminares, os quais são suaves e consistentes, ao contrário da turbulência dos ventos próximos ao solo, captados por turbinas acopladas a torres tradicionais. O cabo especializado (tether) serve tanto como âncora quanto como condutor de alta tensão, eliminando a necessidade das massivas e caras fundações de concreto e aço das turbinas tradicionais. O resultado é uma redução de 40% no uso de materiais e 30% nos custos, capacidade na casa dos megawatts (contra centenas de kilowatts ocidentais) e uma solução móvel que pode ser rapidamente deslocada ou usada como um “power bank” voador em emergências.
Impacto no Brasil e na América Latina
Para o Brasil e a América Latina, a superioridade dessas tecnologias se traduz em oportunidades tangíveis. A costa brasileira, com sua extensa plataforma continental e subsequentes águas profundas, é um cenário perfeito para as turbinas flutuantes chinesas de alta capacidade. A tecnologia de fundo fixo das líderes ocidentais tem alcance limitado para além de águas mais rasas. Em contrapartida, a solução chinesa das plataformas flutuantes em alto mar permite explorar o imenso potencial eólico do mar profundo, algo antes tecnicamente inviável ou economicamente proibitivo.
Já as turbinas aéreas da Sawes Energy oferecem uma solução igualmente transformadora para os desafios continentais da região. Para comunidades isoladas na Amazônia, no Pantanal, no interior árido ou em áreas montanhosas dos Andes, a logística de energia é um enorme desafio. Uma turbina que pode ser transportada por via aérea, implantada em horas e que não requer obras civis complexas é uma revolução no fornecimento de energia descentralizada e de resposta a desastres.
Além do acesso a tecnologias comprovadamente mais robustas e econômicas do que as alternativas ocidentais, surge a oportunidade de um upgrade na cadeia produtiva regional. A cooperação com players chineses pode incluir transferência de know-how em engenharia de materiais leves, sistemas de amarração oceânica e integração de redes elétricas com fontes intermitentes, posicionando a indústria local na vanguarda da próxima década da energia eólica.

Riscos e Oportunidades
A análise aponta para uma oportunidade estratégica de primeira magnitude, mas que exige uma postura negociadora sofisticada por parte da América Latina.
A oportunidade é clara: acessar e internalizar tecnologias de ponta que já superaram as fases de alto risco e fracasso que caracterizaram os projetos ocidentais. A China oferece soluções estáveis, escaláveis e com custos já otimizados. Parcerias ou consórcios com a Sawes Energy, China Huaneng Group e Dongfang Electric podem atrair investimentos substanciais e criar polos de excelência tecnológica na região, com o respaldo de financiamento de instituições como o Banco dos BRICS ou até o BNDES.
O principal risco é que essa vantagem tecnológica se traduza em uma nova forma de dependência, se as negociações não envolverem acordos de offset e se limitarem à compra de equipamentos turnkey sem cláusulas fortes de capacitação local, pesquisa e desenvolvimento conjunto e fabricação regional de componentes. Além disso, a introdução de tecnologias tão novas exige que os reguladores nacionais da região se antecipem, criando marcos legais seguros e ágeis para permitir a certificação e operação desses sistemas inovadores.
A recomendação da ZH Research é que Brasil e outros países-chave da região se posicionem como sócios de desenvolvimento, não apenas como mercados. As negociações devem visar a criação de consórcios de co-desenvolvimento adaptado às condições locais (como ventos específicos do Atlântico Sul ou da costa do Pacífico). Desta forma, a superioridade tecnológica chinesa pode ser o catalisador para construir uma liderança energética soberana e sustentável na América Latina, permitindo que a região não apenas importe, mas também co-crie a próxima geração de soluções eólicas globais.
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Aprofunde-se
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