
O discurso de Ano Novo de Xi Jinping foi proferido na véspera de 2026, durante um momento de reflexão sobre os avanços alcançados em 2025 e as expectativas para o futuro. A mensagem foi divulgada pela China Media Group e pela internet, alcançando tanto o público doméstico quanto internacional, e marcou um período significativo para a China, que encerrava o 14º Plano Quinquenal (2021-2025).
Tal pronunciamento reflete diversas tendências geopolíticas que podem ser analisadas em três categorias principais: políticas, econômicas e psicossociais. Essas tendências indicam as prioridades estratégicas da China no cenário doméstico e internacional e reafirmam seu posicionamento como uma potência global.
Uma tendência geopolítica é um movimento ou desenvolvimento significativo e de longo prazo que emerge da interação entre a geografia, o poder político e as relações internacionais, moldando a estrutura e a dinâmica do cenário global. Essas tendências refletem mudanças profundas nos equilíbrios de poder entre Estados, blocos regionais e atores não estatais, influenciando políticas externas, alianças, conflitos e cooperação em escala mundial, e são impulsionadas por fatores complexos como transformações econômicas, sociais, tecnológicas, ambientais e demográficas.
Por sua vez, um risco global é um evento ou condição incerta que, se ocorrer, pode causar um impacto negativo significativo em vários países ou setores simultaneamente, com potencial para consequências sistêmicas e transnacionais que um único estado ou entidade não consegue conter.
Face ao acima exposto, ambiciona-se apresentar as principais tendências geopolíticas extraídas a partir do discurso de Ano Novo proferido por Xi Jinping, destacando-se alguns dos possíveis riscos e seus respectivos impactos.
Tendências Políticas
Reafirmação da Liderança do Partido Comunista da China (PCC)
O discurso reflete uma reafirmação da liderança central do Partido Comunista da China (PCC), visto como o pilar indispensável para o fortalecimento do país por meio de governança rigorosa, combate à corrupção e melhoria da conduta do partido. Xi Jinping ressaltou que “somente um Partido Comunista forte pode tornar nosso país forte”, enfatizando a necessidade de manter a estabilidade política para a realização exitosa das reformas internas pretendidas.
Defesa da Soberania Nacional e Unidade Territorial
A postura firme da China em relação à soberania nacional e à unidade territorial reflete-se na reafirmação de Taiwan como parte inseparável do território chinês e na defesa da política de “Um País, Dois Sistemas” para Hong Kong e Macau. Xi Jinping destacou que a reunificação de Taiwan é uma “tendência dos tempos” e uma prioridade nacional, enquanto criticou intervenções estrangeiras nos assuntos internos do país. Essa posição gera um risco, pois pode intensificar as tensões geopolíticas com potências como os Estados Unidos, que têm aumentado o suporte militar e diplomático a Taipei, potencialmente levando a uma crise no Estreito de Taiwan. Isso não apenas ameaça a estabilidade na Ásia-Pacífico, mas também pode desestabilizar os mercados globais e prejudicar o comércio internacional.
Liderança no Sistema Internacional
A China tem utilizado plataformas multilaterais, como a Organização de Cooperação de Xangai (SCO), e iniciativas globais, como a Iniciativa de Governança Global, para projetar uma liderança em oposição à hegemonia ocidental. Xi Jinping reforça a importância de um sistema de governança internacional mais “justo e equilibrado”. Esses esforços podem ser interpretados como uma tentativa de desafiar diretamente os EUA e a União Europeia, aprofundando divisões entre blocos geopolíticos, o que caracteriza um risco. Qualquer resistência a essas iniciativas pode dificultar a cooperação em questões globais essenciais, como mudanças climáticas e segurança, além de criar desconfiança em países que historicamente dependem do Ocidente.
Tendências Econômicas
Ênfase no Crescimento Econômico Interno
A China busca consolidar sua posição como uma das maiores economias do mundo, enfatizando o crescimento econômico robusto e sustentável, com projeção de atingir 140 trilhões de yuans (aproximadamente 20 trilhões de dólares estadunidenses a preços correntes) em 2025, marcando avanços significativos nos últimos cinco anos. Apesar desse progresso, a economia chinesa permanece fortemente atrelada a um modelo centrado em exportação e investimentos no exterior e, por conseguinte, vulnerável às flutuações globais, como recessões em economias importantes, que podem impactar suas exportações. Uma desaceleração econômica global poderia amplificar disparidades regionais dentro do país, intensificando tensões sociais e limitando a eficácia dos planos econômicos domésticos de Xi Jinping, podendo impactar os mercados internacionais em países cujo fluxo comercial depende majoritariamente de Pequim, caracterizando outro risco global.
Inovação Tecnológica e Autossuficiência
Este crescimento é acompanhado por uma aposta estratégica na autossuficiência tecnológica, com avanços em inteligência artificial, desenvolvimento de chips e exploração espacial, como a missão Tianwen-2 para asteroides. Esses avanços não apenas reforçam a competitividade chinesa, mas também respondem à intensificação da guerra tecnológica com os EUA, que impuseram restrições à exportação de semicondutores avançados. Dessa forma, a China busca reduzir sua dependência de potências ocidentais e enfrentar pressões da guerra tecnológica com os EUA. Nesse contexto, as restrições impostas por Washington, como embargos à exportação de semicondutores avançados e tecnologias críticas, podem limitar o progresso em setores estratégicos, suscitando outro risco global. Além disso, a fragmentação tecnológica global forçada por essa disputa pode prejudicar a colaboração internacional e aumentar os custos de tecnologias emergentes a longo prazo, bem como gerar disputas por mercados de países possuidores de reservas de minérios estratégicos, como as terras raras brasileiras.
Expansão Comercial e Cooperação Global
Além disso, a China continua expandindo suas conexões comerciais por meio de iniciativas como o Porto de Livre Comércio de Hainan e os avanços em infraestrutura vinculados à Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative). Essa estratégia visa reduzir a dependência de mercados ocidentais e fortalecer alianças regionais e globais, consolidando o papel da China como líder em desenvolvimento econômico sustentável e inovação. No entanto, essas iniciativas enfrentam críticas internacionais por criarem dependência econômica em países parceiros, muitas vezes descritas como “diplomacia da dívida”, o que pode ser um risco para tais nações, caso não possuam projetos governamentais bem estruturados que busquem o pragmatismo estratégico de obtenção de seus próprios interesses nacionais.
Tendências Psicossociais
Exportação de Soft Power Cultural
No cenário global, a China promove seu poder cultural (Soft Power) por meio da exportação de elementos como personagens culturais icônicos (Wukong e Nezha) e do aumento do interesse por símbolos do patrimônio chinês, como relíquias e locais históricos. Iniciativas como o Instituto Confúcio e o sucesso de histórias culturais no cinema reforçam essa estratégia, buscando expandir a influência chinesa como uma alternativa ao domínio cultural ocidental.
Desenvolvimento Esportivo e Cultural Interno
Internamente, a promoção de esportes como futebol e esportes de inverno reflete o esforço do governo para inspirar orgulho nacional e integrar tradições no cotidiano das pessoas, como evidenciado pelos jogos da “superliga” local e o impacto dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022. Essas ações fortalecem o tecido social e oferecem uma visão da China moderna integrada, inovadora e culturalmente rica, podendo ser caracterizadas como Soft Power.
Riscos Envolvidos e Perspectivas Futuras

O discurso de Ano Novo de Xi Jinping em 2026, proferido ao final do 14º Plano Quinquenal, serviu como um marco fundamental para a compreensão das aspirações e desafios da China no cenário global. A mensagem não apenas celebrou os avanços de 2025, mas delineou uma visão estratégica que integra dimensões políticas, econômicas e psicossociais, reafirmando a posição do país como uma potência global em ascensão e a necessidade de navegar por um ambiente internacional complexo e repleto de riscos.
A análise do pronunciamento revelou um conjunto de tendências geopolíticas centrais. Politicamente, a China solidifica a liderança do Partido Comunista, defende intransigentemente sua soberania nacional, com foco especial em Taiwan, e projeta uma liderança no sistema internacional que busca reequilibrar a ordem global. Economicamente, o país prioriza o crescimento interno robusto, a autossuficiência tecnológica por meio de inovação em áreas como inteligência artificial e semicondutores, e a expansão comercial via iniciativas como a Iniciativa do Cinturão e Rota. No âmbito psicossocial, a estratégia visa exportar seu soft power cultural e promover o desenvolvimento interno através de esportes e cultura, consolidando a coesão e o orgulho nacional.
No entanto, essas ambições vêm acompanhadas de riscos globais significativos e seus respectivos impactos. A firmeza chinesa em relação a Taiwan pode intensificar as tensões com os Estados Unidos, potencialmente desestabilizando a Ásia-Pacífico e afetando mercados e comércio globais. A busca por uma governança internacional alternativa pode aprofundar as divisões entre blocos geopolíticos, dificultando a cooperação em questões cruciais como as mudanças climáticas. Economicamente, a vulnerabilidade a flutuações globais pode exacerbar disparidades internas e impactar o modelo econômico de Pequim antes que ocorra uma mudança estrutural para um modelo menos dependente de exportações e investimentos diretos no exterior. A guerra tecnológica com os EUA ameaça fragmentar o cenário tecnológico, aumentar custos e gerar disputas por recursos estratégicos, enquanto a “diplomacia da dívida” da Iniciativa do Cinturão e Rota pode criar dependência econômica em nações parceiras.
A dinâmica global da China é, portanto, moldada por suas interações com as principais potências e seu entorno estratégico. Com os Estados Unidos, a relação é de intensa competição, marcada pela guerra tecnológica e pelo apoio americano a Taiwan, que a China considera uma questão de soberania inegociável. Com a Rússia, a busca chinesa por um sistema internacional mais “justo e equilibrado” e sua participação em organizações como a Organização de Cooperação de Xangai sugerem uma convergência de interesses em desafiar a ordem unipolar. Esses aspectos levantados certamente impactarão a dinâmica internacional no ano de 2026.
Anexo: Discurso de Xi Jinping (ptbr)
Saudações a todos! Ano após ano, a vida abre um novo capítulo. Com o início do ano novo, envio meus melhores votos a vocês diretamente de Pequim!
O ano de 2025 marcou a conclusão do 14º Plano Quinquenal da China para o desenvolvimento econômico e social. Nos últimos cinco anos, avançamos com determinação e coragem, superando muitas dificuldades e desafios. Cumprimos as metas do Plano e fizemos avanços sólidos na nova jornada de modernização chinesa. Nosso produto econômico cruzou marcos importantes e espera-se que alcance 140 trilhões de yuans neste ano. Nossa força econômica, capacidades científicas e tecnológicas, poder de defesa e força nacional composta atingiram novos patamares. Águas cristalinas e montanhas exuberantes tornaram-se uma característica marcante de nossa paisagem. Nosso povo desfruta de um crescente senso de realização, felicidade e segurança. Os últimos cinco anos foram uma jornada verdadeiramente notável, e nossas conquistas não vieram facilmente. Vosso árduo trabalho incansável fez nossa nação prosperar. Saúdo a todos vocês por sua diligência excepcional e contribuições inestimáveis.
Este ano foi repleto de memórias indeléveis. Comemoramos solenemente o 80º aniversário da vitória da Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa e da Segunda Guerra Mundial contra o Fascismo, e estabelecemos o Dia da Recuperação de Taiwan. Esses grandes eventos nacionais foram majestosos e poderosos, e a glória da vitória brilhará nas páginas da história. Eles estão inspirando todos os filhos e filhas da nação chinesa a lembrar a história, homenagear heróis, prezar a paz e criar um futuro melhor. Eles estão reunindo uma força poderosa para a grande revitalização de nossa nação.
Buscamos impulsionar o desenvolvimento de alta qualidade por meio da inovação. Integramos profundamente a ciência e tecnologia às indústrias e realizamos uma série de novas inovações. Muitos grandes modelos de inteligência artificial competiram em uma corrida ao topo, e avanços foram alcançados na pesquisa e desenvolvimento de nossos próprios chips. Tudo isso transformou a China em uma das economias com crescimento mais rápido em termos de capacidade de inovação. A sonda Tianwen-2 iniciou sua jornada para explorar asteroides e cometas. O projeto hidrelétrico nas áreas inferiores do rio Yarlung Zangbo foi iniciado. O primeiro porta-aviões da China equipado com um sistema eletromagnético de catapulta foi oficialmente comissionado. Robôs humanóides realizaram chutes de kung fu, e drones apresentaram espetáculos impressionantes de luzes. As invenções e inovações fortaleceram as forças produtivas de qualidade e adicionaram dimensões coloridas às nossas vidas.
Esforçamo-nos para nutrir nosso lar espiritual por meio do desenvolvimento cultural. Houve um grande interesse público por relíquias culturais, museus e patrimônios culturais intangíveis. Um novo sítio cultural chinês foi adicionado à Lista do Patrimônio Mundial. Propriedades intelectuais culturais, como Wukong e Nezha, tornaram-se sucessos globais. A geração mais jovem passou a considerar a cultura clássica chinesa como a mais sublime forma de expressão estética. Os setores culturais e turísticos prosperaram. Os jogos de futebol da “superliga” em nossas cidades e vilarejos atraíram inúmeros fãs. Esportes de gelo e neve reacenderam a paixão das pessoas pelo inverno. A tradição agora está abraçando a modernidade, e a cultura chinesa brilha com ainda mais esplendor.
Unimos forças para construir uma vida melhor e desfrutá-la juntos. Participei de celebrações no Xizang (Tibete) e em Xinjiang. Do planalto coberto de neve aos dois lados das montanhas Tianshan, povos de vários grupos étnicos estão unidos como sementes de uma romã que permanecem juntas. Com khatas brancas e canções e danças apaixonadas, expressaram seu amor pela pátria e a felicidade que desfrutam. Nenhuma questão do povo é pequena demais; cuidamos de cada folha e ramo no jardim do bem-estar da população. No último ano, os direitos e interesses dos trabalhadores em novas formas de emprego foram melhor protegidos, instalações foram modernizadas para trazer mais conveniência aos idosos, e cada família com necessidade de cuidado infantil recebeu um subsídio de 300 yuans por mês. Quando o som animado da vida cotidiana enche cada lar, a grande família de nossa nação se torna cada vez mais forte.
Continuamos abraçando o mundo de braços abertos. A Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai em Tianjin e a Reunião Global de Líderes sobre Mulheres foram muito bem-sucedidas; e operações especiais alfandegárias foram lançadas em toda a ilha no Porto de Livre Comércio de Hainan. Para enfrentar melhor as mudanças climáticas, a China anunciou novas Contribuições Nacionalmente Determinadas. Após anunciar as três iniciativas globais sobre desenvolvimento, segurança e civilização, propus a Iniciativa de Governança Global para promover um sistema de governança global mais justo e equitativo. O mundo de hoje está passando por mudanças e turbulências, e algumas regiões continuam imersas em guerras. A China sempre se posiciona do lado certo da história e está pronta para trabalhar com todos os países para promover a paz e o desenvolvimento mundial e construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade.
Há pouco tempo, participei da cerimônia de abertura dos Jogos Nacionais e fiquei satisfeito ao ver Guangdong, Hong Kong e Macau unidos e agindo em sincronia. Devemos implementar inabalavelmente a política de Um País, Dois Sistemas, apoiando Hong Kong e Macau a se integrarem melhor no desenvolvimento geral de nosso país e manterem prosperidade e estabilidade de longo prazo. Nós, chineses de ambos os lados do Estreito de Taiwan, compartilhamos laços de sangue e parentesco. A reunificação de nossa pátria, uma tendência dos tempos, é imparável!
Somente um Partido Comunista da China forte pode tornar nosso país forte. Lançamos o programa de estudo e educação para implementar plenamente a decisão de oito pontos da liderança central do Partido sobre a melhora da conduta do Partido e do governo. Exercemos uma governança rígida e promovemos a autorrevolução do Partido para combater a corrupção e avançar com uma governança saudável. Como resultado, a conduta do nosso Partido e governo melhorou continuamente. Devemos permanecer fiéis à nossa aspiração inicial e missão fundadora, e perseguir nosso objetivo com perseverança e dedicação. Devemos continuar a dar uma boa resposta à questão de como manter uma governança de longo prazo apresentada em uma caverna em Yan’an, provando sermos dignos da expectativa do povo nesta nova era.
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