Série “China na Crista da Onda”: Ciclo de Avanços Tecnológicos – ENERGIA FOTOVOLTAICA (#4)

Uma agricultora colhendo goji berry em uma propriedade com uma planta de energia fotovoltaica do Grupo Baofeng em Ningxia. (Créditos: Huawei Group)

A China está usando energia fotovoltaica como eixo central da sua transição energética, combinando módulos TOPCon/HJT de altíssima eficiência produzidos em giga‑fábricas com projetos agrivoltaicos e usinas flutuantes que remodelam desertos e reservatórios. Para o Brasil e a América Latina, isso abre uma oportunidade rara de atacar de uma vez crise hídrica, custo de energia e produtividade do agro, conectando esses sistemas a linhas de transmissão já existentes.

A nova geração da fotovoltaica chinesa

Nas últimas duas décadas, a China saiu de seguidora para líder inconteste em energia solar, respondendo hoje pela maior parte da capacidade instalada e pela fatia dominante da fabricação global de módulos. Em 2025, a potência solar instalada acumulada no país se aproximava de 900 GW, e só no primeiro trimestre a energia fotovoltaica já respondia por cerca de 10% da geração total, com planos de ultrapassar 1 TW ainda nesta década.

Essa expansão não se baseia mais apenas em tecnologia PERC tradicional, mas em uma guinada consistente para células “n‑type” de alta eficiência, especialmente TOPCon e HJT, impulsionada por fabricantes que aumentam rapidamente sua capacidade em múltiplos gigawatts. Ao mesmo tempo, megaprojetos em desertos como o de Kubuqi e Gonghe e usinas flutuantes em reservatórios mostram que a China enxerga o sol não só como fonte de energia, mas como ferramenta de manejo territorial, combate à desertificação e conservação de água.

Tecnologias TOPCon e HJT: a nova elite dos módulos

TOPCon: alta eficiência com escala industrial

TOPCon (Tunnel Oxide Passivated Contact) é hoje uma das tecnologias mais competitivas para produção em massa, combinando ganhos de eficiência com compatibilidade parcial com linhas PERC existentes. Módulos comerciais baseados em TOPCon já entregam eficências de módulo acima de 22,5%, com células de produção em massa na faixa de 23–24% e laboratórios ultrapassando 25%.

Relatórios de mercado indicam que módulos TOPCon bifaciais de grande porte já chegam a potências de 600–715 W, com eficiência de módulo próxima de 23%, como no caso de produtos de fabricantes chineses voltados a grandes usinas. Além da eficiência, TOPCon oferece coeficiente de temperatura mais favorável que PERC, na ordem de –0,29% a –0,32% por grau Celsius, o que resulta em melhor desempenho em climas quentes e semiáridos, típicos de muitas regiões brasileiras.

HJT: eficiência máxima e performance térmica

Heterojunction Technology (HJT) combina silício cristalino com camadas finas de silício amorfo, criando uma estrutura que reduz perdas de recombinação e permite atingir eficiências ainda mais altas. Em comparação com TOPCon, HJT frequentemente apresenta ligeira vantagem em eficiência de célula e desempenho térmico, com módulos comerciais alcançando 23–25% de eficiência e células em produção em massa na faixa de 25,5–26,5%.

O grande diferencial de HJT está no coeficiente de temperatura, tipicamente entre –0,24% e –0,26% por grau Celsius, o que significa perdas menores em dias quentes e ganho de geração anual em regiões tropicais. Além disso, HJT é intrinsecamente bifacial, com fatores de bifacialidade ao redor de 90%, o que aumenta o ganho energético quando combinado com superfícies refletoras (como neve, solo claro ou água) e configurações como trackers e usinas flutuantes.

Embora HJT ainda enfrente custos de fabricação mais altos e demande investimentos em novas linhas, a China já vem instalando gigawatts de capacidade HJT, especialmente para aplicações premium em grandes usinas e em mercados que valorizam alta densidade de potência por área limitada.

Desertos, reservatórios e lavouras: a expansão para novos suportes

Mega‑usinas em desertos: energia e restauração ecológica

Uma das vitrines da estratégia chinesa é o conjunto de mega‑projetos em desertos do interior, como Kubuqi, na Mongólia Interior, e Gonghe, em Qinghai. O projeto conhecido como “Great Photovoltaic Wall” em Kubuqi visa criar um corredor de energia de cerca de 400 km, com múltiplas fases que já somam mais de 5 GW conectados à rede até 2024, distribuídos em plantas de 1 GW cada.

Em Gonghe, um estudo publicado em 2024 na revista Nature mostrou que grandes usinas solares em áreas desérticas estão tendo efeitos positivos sobre o microclima e a ecologia local. Ao interceptarem parte da radiação solar, os painéis reduzem a evaporação, mantendo mais umidade no solo, enquanto a água usada para limpeza dos módulos gera micro‑oásis sob as estruturas. O resultado é o surgimento de vegetação e atividade microbiana em áreas que antes eram praticamente estéreis, invertendo o ciclo de degradação.

Esses projetos usam majoritariamente módulos de alta eficiência (TOPCon/HJT) por gigawatts, reforçando o modelo de “giga‑fábricas para giga‑usinas”, com contratos centralizados de dezenas de gigawatts por vez, como em licitações que exigem módulos TOPCon bifaciais acima de 22,5% de eficiência.

Usinas flutuantes: energia e água no mesmo espelho

Em paralelo aos desertos, a China vem colocando módulos fotovoltaicos sobre lagos e reservatórios, criando usinas flutuantes que combinam geração elétrica com gestão hídrica. Essas instalações reduzem a evaporação da água ao sombrear a superfície, ajudam a conter o crescimento de algas e melhoram a eficiência dos módulos graças ao efeito de resfriamento da água, aumentando a geração.

Um exemplo da projeção regional dessas tecnologias é o projeto de 60 MW de solar flutuante no reservatório de Saguling, em Bandung, Indonésia, construído por uma empresa chinesa. A usina, que faz parte do plano elétrico 2025–2034 do país, deve gerar cerca de 129 milhões de kWh por ano, economizar 56 mil toneladas de carvão padrão e evitar a emissão de 149 mil toneladas de CO₂ anualmente, além de incluir subestação, linhas de 150 kV e integração direta ao sistema de transmissão.

Além da Ásia, relatos e imagens de projetos em reservatórios chineses mostram que usinas flutuantes reduzem evaporação e geram energia simultaneamente, transformando água armazenada em plataforma energética sem competir com o uso de solo.

Agrivoltaica: painéis sobre lavouras

Outra frente são os sistemas agrivoltaicos, nos quais os painéis são instalados de modo a permitir o cultivo agrícola abaixo ou entre as estruturas. Estudos conduzidos por pesquisadores na China indicam que, em climas áridos e semiáridos, o sombreamento parcial dos painéis pode reduzir o estresse hídrico de certas culturas, melhorando a retenção de umidade e, em alguns casos, elevando a produtividade ou a estabilidade de rendimento.

No contexto chinês, há projetos que combinam lavouras de hortaliças, frutas de clima temperado e pastagens com estruturas fotovoltaicas elevadas, além de integrações com aquicultura e criação de animais embaixo de coberturas solares. A combinação de agrivoltaica, desertificação reversa e usinas flutuantes cria um portfólio de soluções que tratam terra e água como ativos conjuntos de energia e produção.

Impacto potencial no Brasil e na América Latina

Para o Brasil e outros países latino‑americanos, as tecnologias chinesas em TOPCon/HJT, agrivoltaica e fotovoltaica flutuante se conectam diretamente com três desafios estruturais: crise hídrica, custo de energia e uso de terra no agro.

Em regiões com hidrelétricas em regime crítico por secas recorrentes, reservatórios podem abrigar usinas flutuantes que reduzem a evaporação e aproveitam a infraestrutura existente de transmissão em alta tensão, facilitando a integração da geração solar à rede. O mesmo raciocínio vale para reservatórios de abastecimento urbano e de irrigação, em que a combinação de solar flutuante e gestão hídrica pode reduzir perdas e, ao mesmo tempo, fornecer energia para bombas, estações de tratamento e indústrias locais.

No agro brasileiro, a agrivoltaica baseada em módulos TOPCon/HJT de alta eficiência pode permitir:

  • Sombrite técnico em culturas sensíveis a excesso de radiação e calor, com redução de evapotranspiração em períodos críticos.
  • Geração distribuída próxima a cargas intensivas (armazéns frigoríficos, unidades de beneficiamento, irrigação) sem abrir novas áreas, usando a área já antropizada.
  • Uso dual em pastagens, com estruturas altas que permitem o trânsito de gado, potencialmente reduzindo o estresse térmico animal.

A alta eficiência de módulos TOPCon e HJT é particularmente relevante em cenários de agrivoltaica, onde o espaço vertical e horizontal é mais restrito e o custo de infraestrutura de suporte é elevado: quanto mais watts por metro quadrado, maior o retorno por área ocupada. Em regiões com radiação solar abundante e temperaturas elevadas, o melhor coeficiente de temperatura dessas tecnologias aumenta a produção anual e reduz a necessidade de sobredimensionamento.

DimensãoTecnologia “China” dominanteConcorrente ocidental avançada (EUA/Can/EU)Onde a tecnologia chinesa se destaca (preço, escala, engenhosidade)
Tecnologia de célula 1TOPCon n‑tipo em giga‑fábricas, módulos 22,5–23%+ e dezenas de GW/ano de capacidade.PERC otimizado (p‑tipo) ainda bastante usado, com transição gradual a n‑tipo em players europeus/americanos.China já fez “pulo” em massa para TOPCon com upgrade de linhas PERC, diluindo custo de CAPEX pela escala e reduzindo LCOE mais rápido.
Tecnologia de célula 2HJT n‑tipo bifacial, módulos 23–25% com coeficiente térmico muito baixo, em linhas dedicadas chinesas.HJT e IBC em volumes menores, mais nichados em fabricantes premium europeus/americanos.A combinação de HJT + giga‑fábricas em China gera curva de aprendizado mais rápida; custo por W cai mais depressa e viabiliza uso em grandes usinas, não só nichos.
Eficiência de móduloTOPCon/HJT de grande porte chegando a ~23% em produtos comerciais de topo.Módulos ocidentais avançados variando em torno de 21–22% nos grandes volumes, com alguns produtos premium acima disso.Eficiência alta + preço agressivo permite que desenvolvedores chineses entreguem mais MW por hectare a custo menor, crucial para agrivoltaica e áreas caras.
Custo médio por wattPressionado por super‑capacidade: exportações chinesas de módulos TOPCon/HJT frequentemente abaixo de 0,20–0,22 USD/W.Produção ocidental com custos trabalhistas/energéticos maiores, tipicamente mais cara por W, especialmente em tecnologias de ponta.Excesso de oferta e integração vertical na China derrubam preço por W, tornando economicamente viáveis projetos complexos (flutuantes, agrivoltaicos) que exigem CAPEX extra.
Cadeia de suprimentoAltamente integrada: da produção de polisilício às linhas de montagem de módulos e trackers, em consórcios chineses.Cadeia mais fragmentada, com gargalos em polisilício, wafers e componentes críticos, dependendo muitas vezes de insumos chineses.A integração permite fechar contratos “turnkey” de dezenas de GW e entregar projetos desertos/reservatórios em prazos curtos – vantagem clara em escala.
Mega‑usinas em desertosProjetos como Kubuqi e outros desertos, com blocos de 1+ GW conectados e efeitos ecológicos positivos (menos evaporação, mais vegetação).EUA, Espanha, Oriente Médio têm grandes usinas em regiões áridas, mas menos projetos desenhados explicitamente como “infraestrutura ecológica” (energia + restauração).A solução chinesa é mais engenhosa: trata o deserto como plataforma de energia e de reversão de degradação, não só como “vazio barato” para instalar MW.
Agrivoltaica (sobre lavouras)Projetos combinando lavouras, pastagens e aquicultura com estruturas elevadas FV em regiões secas, explorando redução de estresse hídrico e microclima.Agrivoltaica avança na Europa (França, Alemanha, Itália), porém com foco mais “agrícola” e menor integração com escalas de dezenas de GW.A vantagem chinesa está na capacidade de replicar rapidamente arranjos padronizados (mesmas estruturas, mesmos módulos) em múltiplas regiões, baixando custo por projeto.
Solar flutuante em reservatóriosUso intenso de reservatórios para PV flutuante, acoplado a hidrelétricas e reservatórios multipropósito; projetos na China e exportads (ex.: Indonésia 60 MW).Europa e EUA têm projetos flutuantes relevantes, mas ainda em menor escala global; muitos reservatórios seguem subutilizados para PV.nrelA China combina engenharia de ancoragem padronizada com módulos baratos, tornando mais barato experimentar arranjos flutuantes e exportá‑los como “pacote” (ex.: Saguling).
Integração com transmissãoMega‑projetos desertos e flutuantes desenhados desde o início para se plugarem a linhas HVDC ou grandes corredores de transmissão internos.No Ocidente, há vários gargalos de licenciamento e atraso em expansão de transmissão, o que limita a velocidade de conexão de grandes usinas.A vantagem chinesa é de escala coordenada: planejamento de linha + usina desde a concepção, reduzindo custo de escoamento por MWh.
Tempo de implantaçãoConsórcios chineses entregam blocos de centenas de MW em prazos muito curtos, apoiados por giga‑fábricas e padronização de componentes.Projetos ocidentais grandes frequentemente enfrentam ciclos mais longos de licenciamento, supply chain e construção.Escala fabril + padronização tornam a solução chinesa mais escalável em tempo: é possível replicar plantas quase “em série”.
Modelo de projeto (energia + água/solo)PV desenhado para reduzir evaporação, criar micro‑oásis e integrar produção agrícola/pastagens, com evidências de melhoria de ecossistemas locais em desertos.Muitos projetos FV ocidentais ainda são concebidos como infraestrutura “mono‑função” (apenas geração), com menor ênfase em serviços ecossistêmicos associados.A abordagem chinesa é mais engenhosa no uso multi‑função de terra/água, algo que o Brasil e a América Latina podem copiar em reservatórios e áreas em processo de degradação.

Riscos e oportunidades para a região

O conjunto dessas tecnologias configura uma oportunidade estratégica dupla para a América Latina: acelerar a transição energética e, ao mesmo tempo, redesenhar a relação com água e terra.

Há potencial para:

  • Transformar reservatórios hidrelétricos em hubs híbridos solar‑hídricos, com usinas flutuantes acopladas a linhas de transmissão existentes, reduzindo custos de conexão e aumentando a previsibilidade da geração.
  • Implantar agrivoltaica em polos agroexportadores, aproximando geração de energia de cargas industriais e logísticas (frigoríficos, esmagadoras, armazenagem) e tornando cadeias de valor mais resilientes a choques de preço de energia.
  • Criar polos industriais de montagem de módulos e estruturas para aplicações específicas (flutuantes, agrivoltaicos), aproveitando a demanda crescente interna e regional para atrair investimento em manufatura de maior valor agregado.

Como em outras frentes da transição verde, a adoção de tecnologias chinesas em fotovoltaica também traz riscos, caso a região se limite à importação de equipamentos e EPC turnkey. Entre eles:

  • Dependência de fornecedores externos para módulos de alta eficiência, inversores e sistemas de ancoragem flutuante, com baixa capacidade de calibrar preços e especificações no médio prazo.
  • Risco de projetos agrivoltaicos ou flutuantes serem concebidos sem adequada adaptação às realidades locais de clima, cultura agrícola e regulação de uso de água, resultando em subaproveitamento ou conflitos.
  • Perda de oportunidade de internalizar conhecimento em engenharia de estruturas, modelagem agroclimática e operação/manutenção de sistemas complexos, se não houver contrapartidas claras de P&D e formação de quadros.

Recomendações da ZH Research

A recomendação é que Brasil e demais países latino‑americanos tratem a cooperação com a China em fotovoltaica de alta eficiência, agrivoltaica e solar flutuante como plataforma de desenvolvimento integrado, energético, hídrico e agroindustrial, e não apenas como fonte de equipamentos baratos.

Três diretrizes se destacam:

  1. Projetar corredores e clusters híbridos
    • Grandes reservatórios hidrelétricos e polos agroindustriais devem ser mapeados como “nós” preferenciais para projetos piloto de solar flutuante e agrivoltaica com módulos TOPCon/HJT, conectados às linhas de transmissão existentes.
    • A priorização desses nós pode maximizar o impacto em segurança hídrica, estabilidade da rede e competitividade do agro.
  2. Negociar transferência de tecnologia e engenharia aplicada
    • Centros conjuntos de P&D focados em agrivoltaica tropical, estruturas para ventos fortes e biofouling em ambientes aquáticos.
    • Programas de capacitação para engenheiros locais em dimensionamento, operação e manutenção desses sistemas, incluindo modelagem de microclima e produtividade agrícola.
  3. Integrar política de uso de terra e água à política energética
    • Reguladores e planejadores devem alinhar marcos de concessão de uso de reservatórios, outorgas de água e zoneamento agrícola às metas de expansão solar, priorizando projetos que entreguem múltiplos benefícios (energia + redução de evaporação + melhoria do solo).
    • Condicionar incentivos fiscais e financiamento público à adoção de práticas agronômicas e ambientais que aproveitem o potencial de regeneração observado em projetos chineses de deserto e reservatórios pode evitar “solarização” puramente extrativista.

Se adotadas com visão de longo prazo, as tecnologias fotovoltaicas de última geração da China podem ser catalisadoras de uma transição energética que, no caso latino‑americano, vá além da eletricidade: uma transição de uso de água, terra e infraestrutura em direção a um modelo produtivo mais resiliente e de maior valor agregado.

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Aprofunde-se

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https://www.anernstore.com/blogs/diy-solar-guides/solar-efficiency-trends-2025-topcon-hjt-bifacial

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