
A China encontra-se atualmente num ciclo de disrupção tecnológica, tendo alcançado vários marcos importantes no final de 2024 e ao longo de 2025 em diversas áreas e posicionando-se cada vez mais próxima da, senão já na, liderança mundial. Em 10 artigos, a série “China na Crista da Onda” descreverá alguns desses avanços por setor, explicará a sua relevância e tecerá recomendações para negócios interessados em cooperação e replicação no Brasil.
A China já usa veículos elétricos (VE) e baterias como instrumentos de disrupção industrial e geopolítica, combinando liderança em escala produtiva com novas químicas como o sódio‑íon e modelos de negócios baseados em troca rápida de baterias. Para o Brasil e a América Latina, isso abre uma janela rara para acoplar-se a essa onda com manufatura, mineração inteligente e redes de recarga alinhadas à realidade regional.
A transição elétrica global e a virada chinesa
A eletrificação do transporte deixou de ser um experimento de nicho para se tornar o eixo central da reconfiguração da indústria automotiva global, com a China na dianteira em participação de VEs na frota e em capacidade produtiva. Em 2024, cerca de 40% das vendas de carros na China já eram elétricos ou híbridos plug‑in, enquanto a América Latina ainda girava em torno de 4%, embora com crescimento acelerado desde 2020.
Essa assimetria não é apenas de adoção, mas de estrutura produtiva: fabricantes chineses, apoiados por gigantes de baterias como CATL e BYD, construíram um ecossistema capaz de entregar desde células e módulos até plataformas veiculares completas e redes de recarga inteligentes. Ao mesmo tempo, o excesso de capacidade na China está transbordando para mercados emergentes, com marcas chinesas já liderando as vendas de VEs em países como Brasil, México, Chile, Uruguai e Costa Rica.
Esse cenário coloca a América Latina em um cruzamento estratégico: ou permanece como importadora passiva de veículos e insumos, ou se posiciona como parceira de desenvolvimento, integrando sua base mineral e industrial à nova geografia da mobilidade elétrica.
Tecnologias‑chave: baterias LFP, sódio‑íon e troca rápida
O eixo CATL–BYD e o domínio das baterias
A liderança chinesa em baterias para VEs hoje se concentra em dois titãs: CATL e BYD, que juntos respondem por algo como dois terços do mercado doméstico de baterias veiculares em 2025. Por trás dessa participação está a consolidação de químicas mais baratas e robustas, como o fosfato de ferro‑lítio (LFP), que sacrificam um pouco de densidade energética em troca de custo mais baixo, maior durabilidade e segurança térmica.
O próximo passo dessa trajetória é o avanço do sódio‑íon, visto em Pequim como uma forma de reduzir a dependência de lítio e outros minerais críticos, ao mesmo tempo em que se atende segmentos de entrada e aplicações em climas frios. Em 2025, os embarques globais de sódio‑íon chegaram a cerca de 9 GWh, num salto de 150% em relação ao ano anterior, impulsionados por fabricantes chineses que expandem rapidamente capacidade produtiva dedicada.
Essa combinação de domínio de LFP em escala e antecipação em sódio‑íon confere à China um colchão estratégico: ela pode ajustar portfólio e preços com agilidade, empurrando competidores para uma guerra de margens enquanto reconfigura a geografia da cadeia de suprimentos.
Sódio‑íon: a segunda onda da revolução de baterias
A aposta em sódio‑íon, liderada por empresas como CATL e BYD, responde a três limitações centrais dos modelos atuais baseados em lítio:
- Custo e volatilidade do lítio: Materiais de sódio podem ser 30–40% mais baratos que os equivalentes à base de lítio, o que abre espaço para VEs de entrada mais acessíveis.
- Desempenho em baixas temperaturas: Protótipos de sódio‑íon mantêm mais de 90% da capacidade a –20 °C, superando baterias de lítio convencionais em ambientes frios.
- Redução da dependência de minerais críticos: Sódio é abundante e amplamente distribuído, permitindo construção de cadeias de suprimento menos concentradas e menos expostas a choques geopolíticos.
CATL trabalha em sistemas de até 160–175 Wh/kg e explora designs “anode‑free” para empurrar a densidade ainda mais, ao passo que BYD foca em estratégias de materiais, incluindo reciclados, para garantir competitividade de custo em VEs acessíveis. Em paralelo, linhas de produção dedicadas – como um projeto de 30 GWh de sódio‑íon da BYD – indicam que, no horizonte 2025–2027, essa química deve sair do laboratório para equipar veículos comerciais leves e carros compactos.
Troca de bateria: redes de swap como nova infraestrutura
Além da química, a China está experimentando um paradigma diferente de infraestrutura energética para transporte: redes de estações de troca rápida de baterias. Em vez de depender exclusivamente de recarga lenta ou ultra‑rápida, montadoras como a NIO construíram milhares de estações que permitem substituir o pacote de bateria de um VE em poucos minutos, em modelos de assinatura ou pay‑per‑use.
Até o fim de 2025, redes como NIO Power e Aulton New Energy contabilizavam milhares de estações conectadas em rodovias e corredores urbanos, com cobertura já no nível de condado em províncias estratégicas. A NIO, por exemplo, preparava‑se em 2026 para implantar estações de quinta geração e adicionou 1.000 novas unidades em um único ano, coordenando a malha de reposição com metas explícitas de oferecer experiência “equivalente à gasolina”.
Esse modelo combate três dores típicas da eletrificação:
- “Ansiedade de autonomia” em viagens longas.
- Limites de infraestrutura elétrica local (ao deslocar a recarga intensiva para off‑peak e para pontos otimizados).
- Desgaste e obsolescência da bateria (ao separá‑la do ativo veículo, abrindo espaço para leasing, upgrade e reutilização).
O contexto estratégico: a arquitetura chinesa da superioridade
A diferença entre a estratégia chinesa e a abordagem ocidental em VEs e baterias não se resume a volume, mas à forma como tecnologia, política industrial e infraestrutura se entrelaçam.
De um lado, players chineses integram verticalmente mineração, processamento de materiais, fabricação de células, montagem de packs, plataformas veiculares e redes de recarga e troca. Essa integração é reforçada por políticas públicas que priorizam a industrialização de novas químicas (como sódio‑íon), a padronização de interfaces e incentivos a modelos de negócio baseados em serviços (bateria como serviço).
De outro lado, muitos fabricantes ocidentais chegam tardiamente à eletrificação, com cadeias fragmentadas e dependência de fornecedores externos de baterias, frequentemente chineses. Isso limita sua capacidade de controlar custos, inovar em formato de pacote e explorar modelos como troca de bateria em escala nacional.
Em termos de estratégia, a superioridade chinesa se manifesta em três planos:
- Plano tecnológico: Domínio simultâneo de múltiplas químicas (NMC, LFP, sódio‑íon) e formatos (células prismáticas, blade, cell‑to‑pack, cell‑to‑body).
- Plano industrial: Capacidade de construir giga‑fábricas, ajustar rapidamente a produção entre diferentes linhas e capturar economias de escala em volumes muito acima dos concorrentes.
- Plano infraestrutural: Desenvolvimento de redes de recarga rápida, swap stations, plataformas digitais de gestão de energia e integração com a rede elétrica, articulados por dados em tempo real.
Essa arquitetura não é neutra: ela permite que a China exporte não apenas veículos, mas “pacotes completos” (carros, baterias, software, modelos de financiamento e, potencialmente, a infraestrutura de recarga), redesenhando a dependência tecnológica de países receptores.
Impacto potencial no Brasil e na América Latina
A América Latina vive, no setor automotivo, uma situação análoga à da energia eólica ou da construção inteligente: um grande mercado em formação, com gargalos de infraestrutura e uma janela curta para escolher parceiros e modelos.
Em 2025, as vendas de VEs e híbridos na região mais que dobraram em relação a 2024, mas ainda representam uma fração pequena da frota total, com países como Chile, Brasil e Uruguai despontando com penetrações de dois dígitos em momentos específicos. Em muitos desses mercados, a maioria dos VEs vendidos já é de origem chinesa, tanto por preço quanto por rapidez de entrada.
Para o Brasil e vizinhos, as tecnologias chinesas descritas acima podem catalisar transformações em três eixos:
- Manufatura e cadeias produtivas. Fábricas de VEs e baterias chinesas instaladas no Brasil podem aproveitar a base mineral sul‑americana e a escala do mercado regional, criando um polo de exportação para o continente. A adoção de sódio‑íon abre espaço para projetos que combinem sódio abundante, materiais locais e linhas de montagem compartilhadas com lítio.
- Infraestrutura de recarga e swap. Redes inspiradas em modelos como o da NIO podem ser testadas em corredores logísticos (por exemplo, eixos portos‑interior) e em frotas cativas de ônibus e táxis, reduzindo o desafio de recarga doméstica dispersa.
- Integração com matriz elétrica e políticas climáticas. VEs de baixo custo e química robusta, integrados a uma matriz elétrica majoritariamente renovável como a brasileira, potencializam ganhos de descarbonização por quilômetro rodado.
Ao mesmo tempo, a região precisa considerar o risco de se tornar apenas “destino final” para veículos e baterias produzidos fora, com pouco conteúdo local e baixa transferência de conhecimento.
Riscos e oportunidades para a região
A análise aponta para uma oportunidade estratégica de primeira grandeza: usar a vantagem chinesa em tecnologia e escala como alavanca para construir capacidades industriais e tecnológicas próprias.
- Acesso a tecnologia madura e em rápida queda de custo. A guerra de preços no mercado chinês de VEs e baterias, combinada com o avanço de LFP e sódio‑íon, torna mais viável a eletrificação em países com renda média mais baixa.
- Consolidação de polos industriais. Instalação de fábricas de VEs, packs de bateria e eventualmente células pode ancorar ecossistemas locais de fornecedores em metalurgia, química fina, eletrônica de potência e software embarcado.
- Integração de políticas industriais e climáticas. A articulação entre incentivos a VEs, metas de descarbonização e aproveitamento de minerais da região (lítio, níquel, manganês, cobre) pode criar uma narrativa de desenvolvimento verde com alto valor agregado.
Os riscos são simétricos às oportunidades e exigem uma postura negociadora sofisticada por parte de governos e empresas latino‑americanas.
- Dependência tecnológica e lock‑in de fornecedores: Ao adotar plataformas de VEs e baterias altamente integradas de poucos fornecedores estrangeiros, a região corre o risco de replicar a dependência vista em outras cadeias, com baixa capacidade de substituição e barganha.
- Vulnerabilidade regulatória e de dados: Soluções de recarga e swap conectadas, com gestão de frota e baterias em tempo real, geram fluxos de dados sensíveis sobre mobilidade, consumo de energia e padrões de transporte.
- Assimetria na captura de valor mineral: Sem políticas claras de agregação de valor, há o risco de que a região continue exportando minerais brutos enquanto importa baterias e veículos de alto valor agregado, perdendo a janela para internalizar etapas de maior densidade tecnológica.
Recomendações da ZH Research
A recomendação é que Brasil e outros países latino‑americanos se posicionem não apenas como mercados finais para VEs chineses, mas como sócios de desenvolvimento na nova arquitetura global de mobilidade elétrica.
Em linhas gerais, sugerem‑se três frentes de ação:
- Estruturar parcerias industriais profundas.
- Negociações com fabricantes de VEs e baterias chineses deveriam priorizar joint ventures industriais com participação relevante de capital local, acesso à engenharia de produto e compromisso de produção para exportação regional.
- Acordos de longo prazo poderiam incluir metas de conteúdo local e roadmaps conjuntos para adoção de novas químicas, como sódio‑íon, em segmentos específicos (carros compactos urbanos, comerciais leves, ônibus).
- Construir infraestrutura de recarga e swap com governança local
- Pilotos de redes de troca de bateria e recarga rápida em corredores logísticos e frotas cativas devem ser implementados com participação de utilities e operadoras latino‑americanas, garantindo que o controle sobre dados e protocolos permaneça na região.
- Incentivos públicos podem ser condicionados à adoção de padrões abertos e à interoperabilidade entre diferentes fornecedores, evitando monopólios tecnológicos.
- Integrar política mineral e política industrial de VEs
- Países com reservas de lítio, cobre e outros minerais críticos deveriam vincular concessões de exploração a contrapartidas de investimento em plantas de processamento, fábricas de células e centros de P&D em baterias.
- Iniciativas regionais podem coordenar padrões ambientais, requisitos de conteúdo local e mecanismos de financiamento, reduzindo a competição predatória intra‑regional.
Se bem conduzida, a cooperação com a China em VEs e baterias pode ser o catalisador para uma mobilidade elétrica soberana na América Latina, em que a região não apenas importe veículos, mas co‑desenhe e fabrique a próxima geração de tecnologias que moldarão suas cidades, corredores logísticos e matrizes energéticas.
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Aprofunde-se
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https://carnewschina.com/2026/01/30/catl-byd-fast-track-sodium-ion-battery-shift-as-lithium-prices-soar/
PatSnap. “Sodium-ion battery technology landscape 2026”. 2026. (fonte complementar sobre o panorama tecnológico do sódio‑íon). Disponível em:
https://www.patsnap.com/resources/blog/articles/sodium-ion-battery-technology-landscape-2026/
Reuters (via síntese em múltiplas notas de mercado). “In China, battery makers bet big on sodium in move away from critical minerals”. 2026. (referência de contexto sobre mudança estrutural para sódio‑íon). Exemplo de cobertura:
https://electrek.co/2026/01/30/catl-byd-betting-on-new-type-of-ev-battery/
Altbridge Insights. “CATL vs BYD: Two titans define the EV battery era”. 2026. (análise estratégica da disputa CATL x BYD). Disponível em:
https://nazymaltbridge.substack.com/p/catl-vs-byd-two-titans-define-the
Battery‑Tech.net. “Top battery makers’ market share in China in 2025: CATL 43.42%, BYD 21.58%”. 2026. Disponível em:
https://battery-tech.net/battery-markets-news/top-battery-makers-market-share-in-china-in-2025-catl-43-42-byd-21-58/
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https://eu.36kr.com/en/p/3620574501930242
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https://chinaevhome.com/2025/06/04/nioenergyreplenishmentnetworkprogressinmay50newswapstationsaddedcountylevelexpands/
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https://www.scmp.com/business/china-evs/article/3342899/chinas-nio-raises-us26-billion-bet-ev-battery-swapping-plans-add-1000-stations
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https://www.argusmedia.com/pt/news-and-insights/latest-market-news/2743911-latin-america-s-ev-sales-passing-up-2024-levels
Argus Media. “EV sales rise in Latin America amid high fuel prices”. 2022. Disponível em:
https://www.argusmedia.com/pt/news-and-insights/latest-market-news/2352765-ev-sales-rise-in-latin-america-amid-high-fuel-prices
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https://evrimagaci.org/gpt/chinese-electric-cars-transform-south-american-market-516764
Deutsche Welle. “China grows while Europe slows in South American EV market”. 2026. Disponível em:
https://www.dw.com/en/china-grows-while-europe-slows-in-south-american-ev-market/a-75718939
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https://latamobility.com/en/balance-2024-data-on-the-electric-vehicle-market-in-latin-america/
