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Labubu e Pidan: Quando a Cultura Pop encontra a Filosofia do Desapego

Este artigo é o terceiro de uma trilogia iniciada uma contextualização sobre as mudanças de comportamento intergeracionais centradas nos conceitos de “bai lan” e “tang ping”, e que estão gerando novas tendências de consumo na juventude chinesa. Se você não leu os artigos anteriores ainda, clique aqui e aqui.

No cenário cultural e econômico da China contemporânea, onde as pressões sociais e aspirações individuais se entrelaçam, surgem fenômenos que, à primeira vista, parecem desconectados, mas que, em uma análise mais aprofundada, revelam uma intrincada teia de significados. Este terceiro e último artigo da nossa trilogia explora a convergência entre o universo lúdico de Labubu, um ícone global da cultura pop, e o caso da Pidan, uma inovadora empresa de artigos para pets cuja identidade visual e filosofia de marca ecoam sutilmente os princípios do “tang ping” e do “bai lan”. Essa conexão inesperada nos oferece uma lente única para compreender como as tendências de consumo e filosofias de vida se influenciam mutuamente, moldando as escolhas e o bem-estar da juventude chinesa.

Labubu: O Príncipe da “Guzi Economy” e do “Kidulting”

Cantora tailandesa-coreana LISA carregando dois Labubus em uma bolsa Louis Vutton; fonte: @lalalalisa_m.

Labubu, com sua estética “feia-fofa” (丑萌, chǒu méng) e personalidade travessa, transcendeu o status de mero brinquedo para se tornar um fenômeno cultural global. Criado pelo artista Kasing Lung em 2015 e popularizado pela empresa POP MART através do conceito de “blind boxes” (caixas-supresa), o boneco Labubu representa o ápice da “guzi economy”, a economia de colecionáveis que atrai um público adulto significativo.

Seu boom global começou por volta de 2019-2020, quando colecionadores asiáticos e ocidentais se apaixonaram por suas edições limitadas, como a série “The Monsters”, e seu design viralizou em redes como Instagram e TikTok. Em 2021, um boneco Labubu “Spooky Boo” da coleção “Molly x The Monsters” esgotou em minutos na China, com revenda atingindo até 10 vezes o preço original (cerca de US$ 1.000 no mercado secundário). A POP MART reportou em 2022 que a linha The Monsters foi uma das top 3 mais vendidas globalmente, impulsionando a receita da empresa para ¥ 4,6 bilhões (cerca de R$ 3,4 bilhões).

Sua popularidade é impulsionada não apenas pelo design único com apelo contemporâneo, mas também pela emoção de surpresa, a busca por edições limitadas e o endosso de celebridades como LISA da banda de K-pop Blackpink e a cantora britânica Dua Lipa. Para muitos, colecionar Labubu é uma forma de “kidulting”, um mecanismo de enfrentamento saudável que permite aos adultos encontrarem conforto e escapismo na nostalgia e na ludicidade, aliviando as pressões da vida moderna.

O fascínio por Labubu e outros colecionáveis reflete uma busca por bem-estar emocional. Em um mundo onde a produtividade e o sucesso material são constantemente exigidos, a “guzi economy” oferece um refúgio, um espaço onde a alegria pode ser encontrada na aquisição e na posse de objetos que evocam emoções positivas. É uma forma de autocuidado, onde a conexão com o nostálgico serve como um contraponto ao estresse do dia a dia. Labubu, nesse sentido, não é apenas um item de consumo, mas um símbolo de uma geração que busca equilíbrio e felicidade em suas próprias condições.

Pidan: A Estética do “Tang Ping” no Universo Pet

Produto Travel Window Pet Carrier Backpack, disponível em https://pidan.store/

Nos últimos anos, a China tem visto um crescimento significativo na adoção de animais de estimação, com os gatos se tornando especialmente populares entre os moradores urbanos. Esse aumento está ligado a mudanças sociais, como a urbanização acelerada, o crescimento da classe média e o estilo de vida solitário de muitos jovens profissionais. O dono médio de gatos na China tende a ser jovem (entre 20 e 35 anos), morador de cidades grandes, como Xangai ou Pequim, e muitas vezes vive sozinho ou em apartamentos compactos, onde os gatos são vistos como companheiros ideais por sua adaptabilidade a espaços menores. A renda média desses tutores geralmente se enquadra na classe média urbana, com poder de consumo voltado para produtos premium, como rações especializadas e acessórios para pets. Além disso, a cultura digital impulsionou o amor por gatos, com muitos tutores compartilhando fotos e vídeos de seus pets em redes sociais, reforçando a tendência.

O crescente número de pessoas que buscam conforto em pets, especialmente no contexto de pressões sociais e econômicas, é um reflexo direto da necessidade de encontrar mecanismos de enfrentamento. A relação com um animal de estimação oferece amor incondicional, companhia e uma rotina que pode ser um antídoto para o estresse e a solidão.

A Pidan, uma empresa para artigos para pets, é um exemplo fascinante de como a filosofia do “tang ping” pode se manifestar no design e na identidade de uma marca. Embora não explicitamente ligada ao movimento, a estética de seus produtos e sua comunicação ressoam com a ideia de “esparramar-se”. A marca adota um design minimalista, com linhas limpas e cores suaves, que transmitem uma sensação de calma, simplicidade e descomplicação. Essa abordagem visual contrasta com a agitação e a complexidade do mundo exterior, oferecendo um refúgio e tranquilidade para os donos de pets e seus animais.

A mensagem da Pidan, “Humanos precisam de gatos, pois eles conseguem congelar as emoções incômodas das horas solitárias em uma calmaria deliciosa”, encapsula perfeitamente a essência do “tang ping” no contexto do bem-estar. Ela sugere que a interação com animais de estimação, especialmente gatos, pode ser uma fonte de serenidade e alívio emocional, permitindo que os indivíduos “congelem” suas angústias e encontrem calma na solidão. Essa ideia se alinha diretamente com a busca por uma vida de “baixo desejo” e a despriorização de expectativas sociais que caracterizam o sucesso. Em vez de buscar felicidade em conquistas externas e na incessante “rodinha de hamster”, a Pidan sugere que a paz pode ser encontrada na simplicidade da companhia de um gato e na aceitação de um ritmo de vida mais tranquilo.

Nesse sentido, a Pidan não vende apenas produtos para pets; ela vende uma promessa de bem-estar, de um estilo de vida mais calmo e de uma conexão emocional que ressoa com os anseios de uma geração que busca redefinir o que significa viver bem.

Um novo paradigma na relação entre Consumo e Existência

A análise de Labubu e do caso Pidan revela um novo paradigma de consumo e existência na China moderna. Longe de serem meras tendências passageiras, esses fenômenos refletem uma profunda reavaliação dos valores e prioridades da juventude chinesa. A busca por conforto, a valorização do bem-estar emocional e a rejeição às pressões excessivas moldam as escolhas de consumo e as filosofias de vida. Seja através da alegria do colecionismo de brinquedos de arte ou da serenidade proporcionada pela companhia de um pet, a geração atual está encontrando suas próprias maneiras de navegar pelas complexidades da vida, construindo um futuro em que o significado e a felicidade são definidos em seus próprios termos. Essa convergência de cultura pop e filosofia de desapego é um testemunho da resiliência e da criatividade humana em face dos desafios do século XXI.

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