Este artigo faz parte de uma trilogia relacionada a mudanças no comportamento do consumidor chinês que estão transformando a maneira como consumidores se relacionam com marcas.

Introdução: O Despertar de uma Geração
Nas últimas décadas, a China testemunhou um crescimento econômico sem precedentes, elevando milhões da pobreza e prometendo um futuro de prosperidade. No entanto, por trás das fachadas de arranha-céus reluzentes e inovações tecnológicas, uma nova realidade se impõe à juventude chinesa: a de uma competição exaustiva, custos de vida proibitivos e uma crescente sensação de estagnação social. É nesse contexto que surgem movimentos como o “tǎng píng” (躺平) e o “bǎi làn” (摆烂), expressões de uma profunda desilusão e uma rejeição cada vez mais explícita ao modelo tradicional de sucesso. Este artigo aprofundará esses fenômenos, explorando suas origens, suas manifestações e as implicações para a sociedade chinesa e para o mundo.
Tang Ping: A Filosofia do “Deitar-se Reto”
O Grito de Luo Huazhong e a Ascensão do Tang Ping
O “Tang Ping”, que pode ser traduzido como “deitar-se reto” ou “esparramar-se”, ganhou notoriedade em 2021 com a postagem viral de Luo Huazhong. Em seu manifesto, Luo descrevia sua decisão de não trabalhar, adotando uma “vida de baixo desejo” – baixas aspirações que, por sua vez, geram baixos gastos. A postagem rapidamente viralizou, dando origem a discussões acaloradas na internet chinesa sobre o real significado do esforço incessante no trabalho e o que realmente importa na vida. A filosofia contida no ‘tang ping’ representa uma rejeição categórica ao sistema de horas de trabalho “996” (das 9h às 21h, seis dias por semana), uma prática comum em muitas empresas chinesas que exige dedicação exaustiva e, muitas vezes, em detrimento da saúde física e mental. O “tang ping” não é sinônimo de preguiça, mas sim uma forma de resistência passiva, uma recusa em participar de uma corrida de ratos que muitos jovens consideram insustentável e sem propósito.
As Raízes da Desilusão: Fatores Econômicos e Sociais

A popularidade do “tang ping” não é um mero capricho, mas um sintoma de problemas estruturais profundos. A intensa competição no mercado de trabalho, o alto custo de vida – especialmente o da moradia nas grandes cidades – e os salários estagnados criam um cenário onde o esforço individual nem sempre se traduz em mobilidade social. A promessa de que o trabalho árduo levaria à ascensão social, tão presente durante o “milagre econômico” chinês, parece cada vez mais distante para as novas gerações. Além dos fatores econômicos, há uma rejeição crescente ao materialismo e às expectativas sociais tradicionais, como o casamento e a instituição da família, que são vistos como fontes de pressão e encargos financeiros. O “tang ping” é, portanto, uma resposta multifacetada a um ambiente que se tornou proibitivamente caro e exaustivo.
Bai Lan: A Arte de “Deixar Apodrecer”
Do Basquete à Atitude Social
Enquanto “Tang Ping” foca na recusa em participar, “摆烂” (bǎilàn), que significa “deixar apodrecer” ou “deixar estragar”, vai um passo além. O termo, originário do basquete da NBA para descrever a prática de “tanking” (perder intencionalmente para obter melhores escolhas no draft), foi apropriado pela juventude chinesa para expressar uma atitude de desistência diante de situações que já estão em declínio ou parecem irremediáveis. É a decisão consciente de não mais lutar contra as adversidades, permitindo que a situação se deteriore ainda mais. “Bai lan” não é uma simples preguiça, mas uma forma de protesto silencioso, uma aceitação quase zen da imperfeição e da falta de controle. É o equivalente a “jogar a toalha” ou “chutar o balde”, mas com uma nuance de passividade e um desapego ao resultado negativo.
A Conexão com a “involução” (内卷, nèijuǎn)
“Bai lan” é uma manifestação direta da “involução” (内卷, nèi juǎn), um termo que descreve a competição interna intensa e improdutiva. Em um ambiente onde todos se esforçam ao máximo, mas os resultados são limitados, a “involução” leva ao esgotamento e à sensação de que o esforço é fútil. Diante dessa realidade, “bai lan” surge como uma estratégia de autoproteção, uma forma de se desvincular das expectativas e pressões que levam ao esgotamento. É uma redefinição do que significa sucesso e bem-estar, onde a paz pode ser encontrada na renúncia à luta incessante.
Movimentos Sociais Relacionados e Implicações Globais
A Resposta Feminista: 4B e 6B4T
O fenômeno da desistência da juventude em cumprir certas expectativas sociais e profissionais não é um fenômeno autóctone chinês, mas sim tem relação direta com o estágio do desenvolvimento econômico e social do país. Anteriormente, as pressões sociais e econômicas também impulsionaram movimentos feministas na China e na Coreia do Sul. O “4B Movement” da Coreia do Sul (sem casamento, sem filhos, sem namoro, sem sexo) e seus derivados na China, como o “6B4T Movement” (de boicote a produtos ligados a papéis de gênero), refletem uma rejeição às expectativas tradicionais de gênero e à pressão para se casar e ter filhos. Na China, o “财力” (cáilì, dote), um encargo financeiro significativo para o noivo, intensifica essa rejeição, criando um ciclo vicioso onde mulheres se recusam a casar com homens sem estabilidade financeira e homens evitam o casamento por não terem condições de arcar com o dote.
Uma “Ressaca Social” Global
Embora “tang ping” e “bai lan” tenham uma roupagem “genuinamente asiática”, influenciada por traços sociológicos das culturas de base confucionista (honra, moral, apego familiar, sucesso material por meios tradicionais), eles não são fenômenos isolados. Movimentos semelhantes, como 삼포세대 (“San-po Sedae”, “geração das três desistências”) na Coreia do Sul e さとり世代 (“Satori Sedai”, “geração iluminada”) no Japão, refletem uma “ressaca social” entre as camadas jovens que também ocorre em grandes cidades da Europa, da América do Norte e, em diferentes medidas, no mundo em desenvolvimento. A intensidade da adesão da população à ideia de que o trabalho gera ascensão social e deve ser protegido a qualquer custo, mesmo em detrimento da saúde física e mental dos trabalhadores, é alta em tempos de “milagre econômico”. No entanto, quando essa promessa se mostra vazia, a desilusão pode levar a movimentos como “tang ping” e “bai lan”, que, longe de serem uma “falta de energia” ou “preguiça”, são guiados pela despriorização racional de expectativas sociais que se tornaram proibitivamente caras para os jovens.
Conclusão: O Futuro da Sociedade Chinesa e o Desafio das Expectativas
“Tang ping” e “bai lan” são mais do que meras tendências; são expressões de uma profunda transformação social e cultural na China. Eles desafiam as noções tradicionais de sucesso e felicidade, e levantam questões importantes sobre o futuro do trabalho, da família e da sociedade. O governo chinês, que já criticou essas atitudes como improdutivas e irresponsáveis, enfrenta o desafio de lidar com uma geração que busca um novo equilíbrio entre aspirações individuais e expectativas sociais. A desilusão da juventude chinesa, manifestada nesses movimentos, é um lembrete de que o crescimento econômico por si só não garante o bem-estar social, e que a busca por significado e propósito transcende as métricas de produtividade e consumo. O futuro da China dependerá, em grande parte, de como ela irá responder a essas novas realidades e às aspirações de sua geração mais jovem.
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